domingo, 4 de dezembro de 2011

Dilemas do futebol


De pequeno aprendi com minha mãe
– hoje só saudade –
e quando vi Zico e Júnior jogando
Vamos Flamengo!
Mas Luxemburgo durante
faz perder vontade
o grito sufoca.

Dentro de mim os anos em São Paulo
rejeitam o Corinthians campeão
quase chego a torcer pelo Vasco
mas é Vasco e Flamengo,
oh céus!

Mas hoje se foi Sócrates Brasileiro
corinthiano, para azar dos infiéis
e que bonito o punho erguido no silêncio
no círculo central do clássico.

E a Libertadores, como então?
outra vez quero Flamengo
mas Luxemburgo sufoca
Vai, Coxa, esquece o racismo
e lembra da glória de 85
quando o Bangu ainda era grande!

Vai Figueira, da ilha da magia!
Vai Inter, mas é Grenal!

Aquiete-se, São Paulo
recolha-se com vergonha
do magrelo Rivaldo.

Não quero Corinthians
mas hoje Sócrates
descansa feliz
com o punho fechado
o peito aberto
que em nós é lamento
e saudade.

Goiás, 4 de dezembro de 2011.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vai tomar banho na Sota!

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A Sota



Ah, vai tomar banho na Sota!

Mas se chover, não dá!
água de barro
depois da trovoada
na cabeceira
enxurrada
lava a pedra
cavando pouquinho
não dá pra ver
na vida do homem
porque as árvores
talvez notem
a pedra dura
cedendo à água
correndinho.

Mas na seca, não dá!
poço rasinho
água parada
lodo brejeiro
riachinho
secando minguando
areia na margem
o cheiro
até o barulho
pequeninho.

Mas depois da chuva
rio redivivo
debaixo do sol
sorri colorido
verde-azul barulhento
correndo corrente
transborda bonito
a gente pula
e banha e alegra
da vida boa
na Vila Boa
de Goiás.

Goiás, 25 de outubro de 2011.
* "Vai tomar banho na soda" é um ditado de Goiás que significa a mesma coisa que "Vai catar coquinho" ou "Vai ver se eu tô lá na esquina". Eu, novato nessas paragens, achava que era "Sota" ao invés de "soda". Convenhamos, a Sota é muito mais divertida!

domingo, 23 de outubro de 2011

A vida das memórias


Sinto saudades
de memórias esquecidas
como fossem
o âmago do ser
carregando consigo
a vida que pulsa
em cantos escondidos.

Goiás, 23 de outubro de 2011.

sábado, 8 de outubro de 2011

Poema pequeno


Quero um poema pequeno
que caiba nos becos
ruas estreitas
praças de coretos
córregos sequinhos
esquinas e quintais.

Poema
lembrado
na terça-feira
às três e quinze
enquanto se arruma a casa.

Verso menor
falado
num encontro fortuito
na rua, na praça
no vai e vem.

Palavra
propaga
nas bocas de qualquer
bonito
singelo, seja!
de quem quiser.

Goiás, 8 de outubro de 2011.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Notícias

Mando notícias, amigos
em pouca prosa distante
em versinhos aqui e ali.

Leiam atentos
percebam
cada palavra
impregnada
da vida aqui
das memórias lá.

(Desculpem-me
lá é o aqui de vocês)

Mando notícias daqui
do longe de vocês
o inominado cerratensis
sertão acabrunhado.

O mundo urge
as correrias urbanas
distâncias lentas.

Aqui respondemos
desleixados
à urgência.

Não vou vê-los
amigos,
já não posso vê-los
sem sofrer.

Inimaginem minha vida
venham, vejam.

Carrego todos comigo
junto ao esquecimento
e a mirada baixa
(é para proteger do sol)
tentando ver
em frente
o que vem.

Goiás, 7 de setembro de 2011.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Hoje

Quero ver
todos os lugares
o aqui hoje
impossibilita infinitos.

Noutra parte
meu coração volta.

Tudo é imenso
e lindo e até
esplêndido
como a vida.

O tempo mata
a desolação humana
não espera.

O tempo
como sempre
só faz passar.

E estou aqui
querendo longe
ver todos os lugares.

E no pensamento
longe
meu coração
volta.

Minha casa de agora,
minha cidade do hoje.

E aqui
os lugares
e o mundo
vão se esvaziando
tudo fica
sem cor
desalmado,
esperando
esperando...

Goiás, 6 de setembro de 2011.

Poesia escolar

Num lado
a palavra
ressoando
baixinho.
Ali um murmúrio
ausente ocupa
espaços e impede
com tristeza
a poesia.

Goiás, 6 de setembro de 2011.

Era eu

Esse era
e não sou mais,
como é difícil
observar.

Goiás, 6 de setembro de 2011.

domingo, 14 de agosto de 2011

Londres


Uma surra no alvo preto
a sociedade precisa de proteção
tudo está normal.

Uma jaula para o alvo preto
é preciso isolar os delinquentes
tudo está normal.

Um tiro no alvo preto
a cabeça explode em vermelho
tudo está normal.

Quatro filhos pretos
sem pai jogados ao mundo
tudo está normal.

Uma mãe sozinha preta
lamenta e chora
tudo está normal.


O povo então se levanta
grita em uníssono justiça
e ouve como sempre não.

O povo então se irrita
toma de assalto o centro do mundo
algo estranho acontece.

O povo então marcha
clama dissonante respeito
oh, Deus, será possível?

O povo cheio de ira destroi
vidros quebrados fogo morte
dedos em riste apontam a culpa.

O povo então não desiste
permanece cabeça altiva
Londres já não é a mesma.

Goiás, 14 de agosto de 2011.

sábado, 23 de julho de 2011

A força do tempo

As cobras gigantes passeiam pelos rios
em totens olvidados de mim,
meu nome não é esse
vocês todos deveriam saber,
o sol se põe hoje e amanhã
cada dia a luz num quadro
as fotos eletrônicas com flash
não conseguem ver.

O chocalho monocromático ressoa
do outro lado vejo a mim mesmo
com a pele mais escura
vermelho marrom de sol
forte como a vida e a palavra.

No espelho, pela noite,
não sinto o cansaço
na língua incompreensível-mim
reconheço um canto, belo
e não posso tocá-lo.

Sinto apenas o coração pulsando
aqui e muito longe
onde vejo ou se me escapa
e bate e pulsa
com a força do tempo.

Goiás, 23 de julho de 2011.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Aplauso

Aplauso para o céu
beijo as estrelas
reverência para o sol
repetição esplêndida!

A lua cheia alegra
de outra forma sorri
os anos sem fim das árvores
levam muitos pensamentos
vagarosos e suaves.

Chuva depois da seca
ressurreição de tudo
as abelhas as flores
frutas multicores
pássaros rasgos no ar
rios pacientes
mar até o horizonte
infinito.

De braços abertos
recebo toda a vida
reconheço acanhado
merece aplauso de pé
e uma grande reverência
o criador.

Cidade de Goiás, 30 de junho de 2010.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pulsa


Bem aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Mateus 5, 4-6 

Até quando escreverei poemas sobre morte
todos os dias só fim sem começo
angústia e amargura e injustiça
sobre esperança e renascimento
neste mundo resta pouco a dizer
estou cego e não escuto
falta-me a forte compreensão
queria como os loucos
virar o mundo do avesso
recriá-lo ao prazer da justiça
serenidade e amor e paz
então triste dou o que me resta
como sombra e sofreguidão
essas palavras pequenas
esse grito abafado
pulsante como as vidas
apagadas dias atrás.

Cidade de Goiás, 30 de maio de 2011.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Como é fácil


Como é fácil ser ambientalista
na cidade grande:
reciclo o lixo, sacola retornável
e me sinto muito bem.

Como é fácil ser comunista
na universidade:
estudo Marx, escrevo um livro
e me sinto muito bem.

Como é fácil ser ruralista
no sertão do Brasil:
roubo a terra, corto o mato,
mato alguns
e me sinto muito bem.

Como é fácil ser grande empresário
na cidade ou no sertão:
isenção fiscal, BNDES,
exploro milhares
e me sinto muito bem.

Como é fácil criticar de longe
o mundo todo:
cuspo umas palavras,
um gosto amargo na boca,
nenhuma diferença,
mas não me sinto muito bem.

Cidade de Goiás, 27 de maio de 2011.

Dinho



Hoje caiu Dinho
mais um, na frente da família
caiu como as árvores
senhoras antigas da floresta.

Vão sendo derrubados
dia após outro
os homens e as árvores
no coração do Brasil
onde a civilização
é o brilho da bala
e o vermelho do sangue
seco no chão.

Na crônica dessa vida
os nomes dos assassinos
foram ditos antes
e todo mundo sabe
na cidade pequena
quem vai morrer
e quem vai matar.

O barro seco do chão,
vermelho cor de sangue
voa com o vento,
já não tem o mato
pra segurar a terra,
leva pra bem longe
a lágrima de hoje.

Anistia aos matadores.
Anistia aos desmatadores.
Mas uma lei basta
eles são as mesmas pessoas.

Cidade de Goiás, 27 de maio de 2011.


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Zé Castanha e Maria do Espírito Santo


eles estavam no caminho de casa
na moto velha de guerra
talvez conversando sobre banalidades
dessas que a gente fala todo dia
o que fazer pra comer
o preço do leite
o filho doente
o futuro.

Então quase ninguém ouviu
vindos do escuro, escondidos,
os ruídos repetidos sem cessar
desde o descobrimento
da Nossa América.

A vida deve sempre
dar lugar ao progresso.
Não é o bagre bigodudo
presente só no afluente do afluente do grande rio,
não é só a castanheira, o açaizeiro,
é o homem, a mulher,
o casal que hoje não volta pra casa.

Vai ver prendem uns pistoleiros
depois de dois anos regime semi-aberto,
de mil dos poderosos prendem um,
aguarda os mil recursos em liberdade.

Antes fosse a lei da selva!

Agora quem vai tirar
da cabeça das pessoas
esse progresso-trator infinito,
vai arrastando tudo
mata-mata-mata
preto, branco, índio, mestiço
mata floresta
mata cerrado
mata água
mata terra
mata ar?

Zé Castanha não colhe mais,
o boi do desenvolvimento
quer pastar no seu quintal.
A Maria foi mesmo pro Espírito Santo,
deixou o caminho aberto
pra moto-serra zunir
e fazer do Brasil potência.

O futuro deles não veio,
o nosso está aí por fazer.

Cidade de Goiás, 26 de maio de 2011.


domingo, 8 de maio de 2011

Nunca mais


Escrevi 53 poemas reclamando
das festas de ano novo,
falei mal do Natal durante anos,
xinguei a Páscoa e seus ovos e coelhos
mas poupei Nossa Senhora de Aparecida
porque não sou católico.

Celebrei aniversários
e outros deixei passar.
Escrevi cartas, inventei memórias
li e-mails antigos e senti saudade
mas é assim, não quis voltar.

Recebi poemas de amigos,
escrevi poemas para amigos,
viajei por aí e voltei
e de vez em quando
sinto uma vontade
de sair pelo mundo
conhecendo gente nova
e revendo os velhos amigos
um por um
em São Paulo
em Blumenau
em Porto Alegre
e Puerto Quijarro
Lima, La Paz, Santa Cruz de la Sierra
donde estuve con los bolivianos por un mes!

Vamos, vamos, vida!
Buenos Aires, Montevideo
a pequena Las Grutas
e a grande Santiago
do cerro Santa Luzia!

Às vezes, quase sempre
me canso das pessoas
e prefiro a natureza.

De vez em quando,
como um vulto
passando atrás de nós
enquanto andamos pelas ruas
cheias das grande metrópoles,
lembro dos amigos distantes
e sinto saudades
e me dá ganas de voltar
percorrendo os caminhos conhecidos
relembrando as histórias
rindo com nostalgia
e falando do tempo passado
que não volta
nunca mais.

Cidade de Goiás, 5 de maio de 2011.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O carro ou a vida que deixei para trás


Para São Paulo

Dentro é minha casa
minha vida e o que sou
as conquistas para todos verem
no brilho e na potência
tração 4 por 4
um tanque de guerra
andando pela cidade.
A buzina é minha música
o ronco do motor
que maravilha!
saiam da frente
deixem passar
os 300 cavalos
é meu direito
tenho pressa
tenho medo
tenho tudo
em meu blindado exclusivo.

Vale mais que a vida.

Trabalho como um louco
junto tudo
não tenho casa
não tenho mais nada
por todo o sacrifício
eu mereço
esse luxo que mata
devagar
intoxicando
rápido
num acidente.

Acidente?

Quero ir rápido
quero chegar logo
antes de todos,
mas todos querem
chegar como eu
rápido
mais rápido
todos todos
velocidade máxima
10 km/h na cidade
no meu território
de todos os dias.

Respiro fundo
tusso, escarro
piso fundo
paguei caro
eu mereço
mereço essa vida
esse mundo
andando devagar
rodando rodando
cada vez pior.

Cidade de Goiás, 17 de abril de 2011.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um poema para os meus amigos ateus torcerem o nariz


A história do mundo quica em
minha cabeça
e então eu penso:
será possível ter uma conversa amistosa
com um comunista ranzinza?
E se eu falar de Deus e das questões existenciais
que me perturbam e me resolvem
viro automaticamente um conservador?

Mas é que essas outras respostas
sofríveis e tão chatas
de evolução-ciência-e-sei-lá-o-que-mais
parece que suprimem do mundo
de uma só vez
todas as gargalhadas de alegria.
E a objetividade tão séria
é tão verdadeira e sem paradoxos
que – tenho quase certeza
parece mentira.

Mas como a gente faz pra explicar
tudo de uma vez?
Precisamos respostas, afinal, e o sorveteiro
da rua não vai me decifrar
o sentido da vida por 50 centavos
num sorvete de cajá.
Mas é gostoso num dia de calor
banhar no rio e pular como criança.

(O rio e a criança são recorrentes em meus poemas, eu sei)

Só que se eu for inocente serei enganado.
E então?

E então podem dizer o que quiserem
quem sabe não digam nem pensem
nada sobre isso
e minha vida lhes seja de todo
indiferente.
Mas se não for e vocês pensarem
considerem só um momentinho
– eu quero um mundo justo também –
considerem a possibilidade
pequena e absurda
de Deus estar lá
sorrindo conosco
quando a gente vive
e desfruta a vida
e se alegra
como crianças inocentes.

Não sei de tudo
a beleza de existir
e o sol, o rio, os pássaros
e a alegria de vez em quando
ah, tem algo escondido ali
uma sombra, um caçador
o nome que for
é mais do que podemos ver.

Goiás, 4 de abril de 2011.

sábado, 2 de abril de 2011

Os insuportáveis


Você pode não gostar de alguém
achá-la uma pessoa insuportável
mas quando ela morre
subitamente
então você gosta.

Ela mentia e cometia pequenas traições
você observava
e achava aquilo tudo
desprezível
mas num golpe da vida
tudo está perdoado.

Você odiava aqueles cacoetes
sentia asco daquela afetação
em seu rancor
queria vê-la desaparecer
mas não era para tanto.

Ela morreu
de forma inesperada
e você se deu conta
era só uma pessoa
como tantas outras
andando por aí
vivendo a vida
fazendo o melhor que pode.

Goiás, 25 de março de 2011.

terça-feira, 8 de março de 2011

Os fantasmas

Às vezes eu fico paralisado
pela dúvida,
você não?
Quero escrever, falar, responder,
mas quem sou eu?
Sabe como é isso?

Os fantasmas andam por aí
perseguindo a nossa alma.

Nos dias ócio demasiado
leio livros, mato tempo
e olho para dentro.
Nem sempre aprecio a visão.
Acontece com você?

Lá fora estão todos festejando
a felicidade falsa,
mas são humanos como eu,
entende?

Há desejos perdidos
a moral não permite.
Não quero ser assim,
sabe?

Quando sei
tenho vergonha de dizer,
o mais importante
parece escondido.

Os fantasmas...

Num dia
pensando
a vida parece tão estranha.
É constragedor,
já sentiu isso?

Eles estão lá fora
aqui dentro
por toda parte
e não vão embora
por mais que a gente queira.

Cidade de Goiás, 6 de março de 2011.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Não sou daqui


No meu cotidiano parado
vejo de longe a vida nas metrópoles
e palavreio sobre a chuva de cá
e o nada e o tempo
o tempo só passando, passando.

Gente é gente
igual em todo canto.

Aqui na Villaboadegoiás
o estagiário do arquivo
escutando o batidão sertanejo
do show lotado da cidade grande
querendo ir pra lá
oportunidades na vida.
O ferragista que não diz quando vem
e no final não vem.
Aquela senhorinha
não quis me alugar a casa
barbudo de outro lugar, oras!
As crianças perguntam
o sobrenome, a família
essencial!
Na universidade
falta o carimbinho no papel
pra fazer a matrícula.
O nada no trabalho
eu-queria-ver-os-índios
contrasta.

Aqui no meu quintal
coisas de sempre
goiabas galinhas limão
caju cajá fruta-do-conde
romã, veja só!
outras mais.

Aranhas, insetos
o escorpião amarelo
ali no cantinho
no meu sonho.

E o tucano, ai!
pertinho,
revivo!

Não sou daqui
não quero ser de lá.

Cidade de Goiás, 21 de fevereiro de 2011.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A alma sobrevive


O sangue se esparramou na cara
na calçada ficou e secou
como a memória seca
esquecida com o tempo.

Os ossos quebrados doem
na nossa vista por um instante,
doem na mesa de cirurgia,
na cicatriz e no medo
o resto da vida.

Olhe ali o nariz quebrado no chão,
olhe ali os oito fardados,
a multidão ensandecida,
a desrazão de todos nós.

Reinvento Freud,
a doença da civilização brasileira,
Whitman diz dormindo
Oh, Brasil, imenso,
até quando?

O gás, a bomba moral,
a explosão da moral,
vale a pena andar por aí
ainda, ou deve ser melhor
o livro, a tv, a internet.

Mas ele voou sobre o policial,
falta-lhe a disciplina de Luther King,
não, ele não leu Liev Tolstoi
ou simplesmente na hora
não conseguiu se controlar.

Às vezes a raiva vence
e Jesus de longe observando
faz que não com a cabeça
e corre para abraçar.

Correm para socorrer
todos os cristãos mortos
e Madre Teresa de Calcutá
vem lavar as feridas.

Os cristãos vivos
compram um carro
e passam longe dos ônibus
dos protestos e da desordem social
e veem tudo em casa
pelas notícias das redes sociais
e comentam.

A pregação dos pastores
quase sempre não encosta
nem de levinho
em minha alma de ressaca.

Fernando Pessoa e García Lorca
fazem não com a cabeça.

Mas Jesus, o Evangelho que aprendi,
volto pra ele cansado,
cheio de desânimo
e encho os pulmões,
sôfrego, sem os ossos da cara estilhaçados,
lembrando da tropa de choque,
os cavalos imponentes
e tanta raiva.

A alma sobrevive.

É tão bonito
ver o amor desabrochando
quando uma pessoa
olha para outra,
firme, esquece o mundo,
pronta para ajudar,
fazer-lhe uma oraçãozinha que seja,
concentrar nela seus pensamentos
por um segundinho só.

Esse segundinho é tão difícil
na hora, naquela hora mais necessária, ai!
não consegui dar a outra face.
E então mundo inteiro me condena,
reprova minha atitude,
a falta de firmeza,
a tibiez de caráter,
pulsilânime.

Mas Jesus olha lá de longe,
faz não com a cabeça
e vem abraçar todos,
o desordeiro cheio de ideias,
o bom cidadão que julga o mundo de sua casa,
o poeta inspirado na frente do computador,
o policial fardado e com cacetete
e até mesmo os cristãos.
Abraça com calma e paciência. Oh!

Não me julguem inocente, amigos,
já sei, quero ser como as crianças,
não me julguem desordeiro, amigos,
já sei, quero ser como os revolucionários,
não me condenem, amigos,
deixem isso comigo,
eu preciso de todos vocês
e quero dar de graça
aquela coisinha, todos precisamos,
é pouco, eu sei, desculpem!,
o amor.

Cidade de Goiás, 19 de fevereiro de 2011.