sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Tapiocaria


Trôpegos pelas ruas de pedra
chegam os poetas, os atores, os cantores,
vêm das praças, das calçadas e dos becos,
em trupe vão chegando
e solitários, ora pois,
todos juntos numa esquina.

Os pintores comparecem
fotógrafos, cineastas,
e salta um livro
a voz liberta os versos
cantigas não só de amor
gestos naturais
mas bem pensados
no esperadouro da arte
a cidade resplandece.

A querença de fazer
vai agarrando a gente passante
aos ouvintes pouco a pouco
as letras espargidas
contaminam
vão todos
pulsando o coração
fortes, tímidos até,
erguem vozes
o silêncio escuta
mastiga engole.

Um porto de esquina
bons ares, comida, bebida
sustança da barriga
gula de arte
enormidade de vida.

Geraldo Witeze Junior
Goiás, 4 de fevereiro de 2010.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dilemas do futebol


De pequeno aprendi com minha mãe
– hoje só saudade –
e quando vi Zico e Júnior jogando
Vamos Flamengo!
Mas Luxemburgo durante
faz perder vontade
o grito sufoca.

Dentro de mim os anos em São Paulo
rejeitam o Corinthians campeão
quase chego a torcer pelo Vasco
mas é Vasco e Flamengo,
oh céus!

Mas hoje se foi Sócrates Brasileiro
corinthiano, para azar dos infiéis
e que bonito o punho erguido no silêncio
no círculo central do clássico.

E a Libertadores, como então?
outra vez quero Flamengo
mas Luxemburgo sufoca
Vai, Coxa, esquece o racismo
e lembra da glória de 85
quando o Bangu ainda era grande!

Vai Figueira, da ilha da magia!
Vai Inter, mas é Grenal!

Aquiete-se, São Paulo
recolha-se com vergonha
do magrelo Rivaldo.

Não quero Corinthians
mas hoje Sócrates
descansa feliz
com o punho fechado
o peito aberto
que em nós é lamento
e saudade.

Goiás, 4 de dezembro de 2011.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Poema para Belo Monte

Estão chamando para a guerra
longe, muito longe, no imenso verde
dos rios infinitos, da voragem
cheia de vida delirante fantástica
chama há tempos, gritam
pela paz mas veio a guerra
antes de mim tempo atrás
agora alisto-me pacifista voluntário
corro para o combate
junto aos meus desiguais distantes
os invisíveis sob o grande mato
as crianças nadam nos rios
os homens de boca grande
pintam a cara de preto
as mulheres impunham seus facões
não os entendemos bem
os ribeirinhos invadem o canteiro
os artistas juntam-se em palavras
o vídeo, o protesto, o chamado
ecoa desde sempre
estão chamando para a guerra
é o ancestral que geme no leito
do seu sono eterno inquieto
é o rio que corre chorando
água do lamento dos povos
a floresta grita desespero
Tuíra empunha seu facão
Raoni convoca todos e avisa
vamos morrer ali
perto ou longe
juntam-se os ribeirinhos
a voz cresce CRESCE
o Xingu não morre fácil
e aquela gente sem nome
não vai fugir assim
ao urro surdo do senhor
preocupado em comprar e vender
não vai deixar vencer
a ignorância cega da ganância
intolerância velha dos covardes
temos morrido aos poucos
há tempos sem saber
como não houvesse outro caminho
sem pensamento ou coração
seguindo inertes ao deus maldito
demônio disfarçado enganou
estão chamando para a guerra
queria paz mas veio a luta
não era um deles e agora sou
sou da floresta e do Xingu
sou caiapó sou ribeirinho
vamos todos agora sem tardar
para a luta.

Goiás, 16 de novembro de 2011.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Você espera que tudo vá bem


Você espera então que tudo vá bem.

Assim.

Enquanto isso você continua
vai ao trabalho, paga suas contas
aos fins de semana, quando dá,
se diverte, um cineminha, talvez
a casa financiada, mulher,
filhos, cachorros, um carro novo
financiado, e vai levando.

Você espera então, assim, que tudo vá bem.

Enquanto isso você continua
procurando o mínimo de conforto
a escola boa para as crianças
devem passar no vestibular aos 17
universidade pública, claro
e paga seus impostos de bom cidadão.

Você espera e confia que tudo vá bem.

E vive sem pensar muito
de onde vem a luz obediente ao interruptor
será possível viver sem ter patrão
obedecer as leis feitas sob encomenda
seguir em frente assim, confiando
tudo bem, tudo certo
sem saber nem um pouco
do que se faz a vida.

Goiás, 14 de novembro de 2011.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vai tomar banho na Sota!



A Sota



Ah, vai tomar banho na Sota!

Mas se chover, não dá!
água de barro
depois da trovoada
na cabeceira
enxurrada
lava a pedra
cavando pouquinho
não dá pra ver
na vida do homem
porque as árvores
talvez notem
a pedra dura
cedendo à água
correndinho.

Mas na seca, não dá!
poço rasinho
água parada
lodo brejeiro
riachinho
secando minguando
areia na margem
o cheiro
até o barulho
pequeninho.

Mas depois da chuva
rio redivivo
debaixo do sol
sorri colorido
verde-azul barulhento
correndo corrente
transborda bonito
a gente pula
e banha e alegra
da vida boa
na Vila Boa
de Goiás.

Goiás, 25 de outubro de 2011.
* "Vai tomar banho na Sota" é um ditado da cidade de Goiás que significa a mesma coisa que "Vai catar coquinho" ou "Vai ver se eu tô lá na esquina". Convenhamos, a Sota é muito mais divertida!

domingo, 23 de outubro de 2011

Poema para historiadores


O historiador
ele mesmo história
flui no rio da vida
abandonando os barcos
do adiante
mirando atrás
enquanto a água
vai passando.

Goiás, 23 de outubro de 2011.

A vida das memórias


Sinto saudades
de memórias esquecidas
como fossem
o âmago do ser
carregando consigo
a vida que pulsa
em cantos escondidos.

Goiás, 23 de outubro de 2011.

sábado, 8 de outubro de 2011

Poema pequeno


Quero um poema pequeno
que caiba nos becos
ruas estreitas
praças de coretos
córregos sequinhos
esquinas e quintais.

Poema
lembrado
na terça-feira
às três e quinze
enquanto se arruma a casa.

Verso menor
falado
num encontro fortuito
na rua, na praça
no vai e vem.

Palavra
propaga
nas bocas de qualquer
bonito
singelo, seja!
de quem quiser.

Goiás, 8 de outubro de 2011.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Paramnese (provisória)


Quando escuto aquela canção
subitamente melancólica
as grandes nuvens das serras
úmidas do choro dos deuses
descem sobem dissipam
abraço o mundo
e lembro muito bem
da necessidade
da virtude
da beleza
da vida
da arte.

Goiás, 15 de setembro de 2011.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Notícias

Mando notícias, amigos
em pouca prosa distante
em versinhos aqui e ali.

Leiam atentos
percebam
cada palavra
impregnada
da vida aqui
das memórias lá.

(Desculpem-me
lá é o aqui de vocês)

Mando notícias daqui
do longe de vocês
o inominado cerratensis
sertão acabrunhado.

O mundo urge
as correrias urbanas
distâncias lentas.

Aqui respondemos
desleixados
à urgência.

Não vou vê-los
amigos,
já não posso vê-los
sem sofrer.

Inimaginem minha vida
venham, vejam.

Carrego todos comigo
junto ao esquecimento
e a mirada baixa
(é para proteger do sol)
tentando ver
em frente
o que vem.

Goiás, 7 de setembro de 2011.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Hoje

Quero ver
todos os lugares
o aqui hoje
impossibilita infinitos.

Noutra parte
meu coração volta.

Tudo é imenso
e lindo e até
esplêndido
como a vida.

O tempo mata
a desolação humana
não espera.

O tempo
como sempre
só faz passar.

E estou aqui
querendo longe
ver todos os lugares.

E no pensamento
longe
meu coração
volta.

Minha casa de agora,
minha cidade do hoje.

E aqui
os lugares
e o mundo
vão se esvaziando
tudo fica
sem cor
desalmado,
esperando
esperando...

Goiás, 6 de setembro de 2011.

Poesia escolar

Num lado
a palavra
ressoando
baixinho.
Ali um murmúrio
ausente ocupa
espaços e impede
com tristeza
a poesia.

Goiás, 6 de setembro de 2011.

Era eu

Esse era
e não sou mais,
como é difícil
observar.

Goiás, 6 de setembro de 2011.

Fotografia

Pediram sorrisos
naquela foto
para no futuro
parecesse
que éramos felizes.

Cidade de Goiás, 6 de setembro de 2011.

domingo, 14 de agosto de 2011

Londres


Uma surra no alvo preto
a sociedade precisa de proteção
tudo está normal.

Uma jaula para o alvo preto
é preciso isolar os delinquentes
tudo está normal.

Um tiro no alvo preto
a cabeça explode em vermelho
tudo está normal.

Quatro filhos pretos
sem pai jogados ao mundo
tudo está normal.

Uma mãe sozinha preta
lamenta e chora
tudo está normal.


O povo então se levanta
grita em uníssono justiça
e ouve como sempre não.

O povo então se irrita
toma de assalto o centro do mundo
algo estranho acontece.

O povo então marcha
clama dissonante respeito
oh, Deus, será possível?

O povo cheio de ira destroi
vidros quebrados fogo morte
dedos em riste apontam a culpa.

O povo então não desiste
permanece cabeça altiva
Londres já não é a mesma.

Goiás, 14 de agosto de 2011.

sábado, 23 de julho de 2011

A força do tempo

As cobras gigantes passeiam pelos rios
em totens olvidados de mim,
meu nome não é esse
vocês todos deveriam saber,
o sol se põe hoje e amanhã
cada dia a luz num quadro
as fotos eletrônicas com flash
não conseguem ver.

O chocalho monocromático ressoa
do outro lado vejo a mim mesmo
com a pele mais escura
vermelho marrom de sol
forte como a vida e a palavra.

No espelho, pela noite,
não sinto o cansaço
na língua incompreensível-mim
reconheço um canto, belo
e não posso tocá-lo.

Sinto apenas o coração pulsando
aqui e muito longe
onde vejo ou se me escapa
e bate e pulsa
com a força do tempo.

Goiás, 23 de julho de 2011.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Aplauso

Aplauso para o céu
beijo as estrelas
reverência para o sol
repetição esplêndida!

A lua cheia alegra
de outra forma sorri
os anos sem fim das árvores
levam muitos pensamentos
vagarosos e suaves.

Chuva depois da seca
ressurreição de tudo
as abelhas as flores
frutas multicores
pássaros rasgos no ar
rios pacientes
mar até o horizonte
infinito.

De braços abertos
recebo toda a vida
reconheço acanhado
merece aplauso de pé
e uma grande reverência
o criador.

Cidade de Goiás, 30 de junho de 2010.

sábado, 25 de junho de 2011

Olhos fechados


Se estudamos o holocausto
por que não o genocídio
dos índios brasileiros?

Se aprendemos várias línguas
de países distantes
inglês, francês e alemão
por que nem tentamos
inỹ, awen, tupi
que estão pertinho?

Se aceitamos no Brasil
gente do mundo inteiro
por que não toleramos
os que estavam aqui
bem antes de nós
e nos receberam
e insistem sobrevivendo?

Se estudamos a revolução francesa
por que não damos atenção
as revoluções da nossa terra
e dos nossos vizinhos
centenas de povos buscando liberdade?

Se adotamos o cristianismo
e os dogmas absolutos
por que esquecemos o Cristo
e seus ensinamentos
e sua compaixão?

Se somos humanos
por que durante tanto tempo
fechamos os olhos
para não ver a maior parte
dos nossos semelhantes
como se não estivessem ali?

Cidade de Goiás, 8 de junho de 2011.

sábado, 11 de junho de 2011

Não ao medo!


Não ao medo dos fortes
que oprimem a gente
e a tornam pequena.

Não ao medo dos ricos
que roubam a gente
e a tornam pobre
como nunca foi.

Não ao medo dos grandes
donos de tudo
terra água ar
que cercam, proíbem a gente
de andar livre pelo mundo
e viver a vida como deve ser.

Não ao medo dos latifundiários
dos políticos dos empresários
não ao medo
da polícia que mata
do bandido que mata.

Não ao medo da bala
da emboscada
do escuro.

Não ao medo!

A terra o rio a beleza
a dignidade
a força do braço
são nossos por direito
todos sabem
a terra que grita sabe
o bicho que espreita sabe
a árvore antiga sabe
o broto novo sabe
o fogo que queima sabe
a chuva que apaga sabe
o vento que geme sabe
toda a gente sabe
mas alguns
fingem não saber.

Não ao medo
nem da vida
nem da morte.

E se a caminhada tiver que acabar
hoje amanhã ou na próxima estação
vai ter de nós
força luta e coragem.

Cidade de Goiás, 10 de junho de 2011.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pulsa


Bem aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Mateus 5, 4-6 

Até quando escreverei poemas sobre morte
todos os dias só fim sem começo
angústia e amargura e injustiça
sobre esperança e renascimento
neste mundo resta pouco a dizer
estou cego e não escuto
falta-me a forte compreensão
queria como os loucos
virar o mundo do avesso
recriá-lo ao prazer da justiça
serenidade e amor e paz
então triste dou o que me resta
como sombra e sofreguidão
essas palavras pequenas
esse grito abafado
pulsante como as vidas
apagadas dias atrás.

Cidade de Goiás, 30 de maio de 2011.