terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Um por cento ou matemática da defesa

Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, 
por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. 
Tiago 5,1

Como nos defenderemos
dessa gente mesquinha e covarde,
a elite empreendedora,
os ricos, as corporações,
esses senhores disfarçados de dignidade
nos ternos bem cortados,
no minimalismo descolado
das jovens start-ups,
os donos do mundo e do capital,
um por cento predadores?

Senhores e senhoras
vamos aos números
do susto e da desgraça.
Menos de um por cento
de todos os seres humanos
engole quase a metade da riqueza produzida.

Ze-ro-vír-gu-la-se-te.

Vamos clarear
talvez ainda
esteja difícil de entender,
população de 0,7% = 41% do tesouro.

Certas pessoas comem por cem.

Ainda mais números,
precisamos da matemática,
senhoras e senhores.

Oitenta e cinco
é o cômputo das gentes
engolindo em bocadas grandes
oitocentos e trinta e três
pedaços do bolo
repartido em mil.

Outra vez
é preciso
esclarecer:
pessoas 8,5% = 83,3% da fortuna.

Essa gente come bolo!

E ainda querem
nos fazer acreditar
que esses poucos
produziram tudo
com seu suor e trabalho.

Sou fraco nessa fé.

O resto de nós todos
é apenas um bando
grande e preguiçoso
que não se esfoçou o suficiente
ainda?

Como nos defenderemos
desse ataque tão mordaz?

A comilança sempre aumenta
e devemos produzir outro bolo
recheado e com confeitos
para os patacudos.

Vamos todos juntos
trabalhar alegres,
bem dispostos,
talvez nos sobrem umas migalhas!

E essa gente gulosa mata
um dia após o outro
as girafas pescoçudas
os rinocerontes chifrudos
os leões reis-da-selva
os corais da Austrália
os peixinhos da Amazônia
os tubarões do mar azul
os gorilas grandalhões do Congo
infinitos seres pequeninos.

Bocarra aberta
engolindo o abismo da criação.

Dessa violência
nos defenderemos?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Santo ofício policial


A multidão andava, rápido,
corria ensandecida.
Os carros de som
bradavam inaudíveis.
As bombas de efeito imoral
caíam incontáveis.
As bombas de gás
voavam infinitas.
Spray pimenta
balas de borracha
cavalaria.

É que viraram um carro
tudo está justificado.

Sobre os pecados da polícia
desce imediatamente
a graça divina:
fazem seu trabalho.

Trabalhar, hoje,
é sagrado!
São Paulo disse:
quem não quer trabalhar
não coma.

Picharam umas paredes
tudo está justificado.

Na cortina de fumaça
chovem bombas
sobre a multidão.

Crianças perdidas,
adultos desconsolados,
jovens resistem.

Barricadas, fogo!

Depois do santo ofício
exercido sem moderação
ninguém reclama
do carro queimado.

A multidão recuava
por todos os lados.

Um menino solitário,
calça jeans, sem camisa,
lenço no rosto,
solidário com a vida
gritava e desviava
todos, todos!

Havia um ninhozinho
de Quero-quero.
A mãezinha berrava,
mais que as bombas.
A multidão com medo
desviava, respeitosa.

Marchavam os cachorros
dos donos do poder.
Os rastros da dor
cruzavam o ar
antes de explodir.

Passaram todos pelo ninho,
e então vieram.

O que foi do passarinho?

A polícia,
a polícia não desvia.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Tão rápido


Ainda me impressionam
as pessoas na sala de espera
do consultório psiquiátrico
olhando arregaladas os telefones.

Às vezes me pedem
que mande mensagem no zap,
respondo que não,
não posso, não quero,
e me olham estranho.

Sou de outro tempo
e nem sou tão velho assim.

Não é questão de idade,
gosto de olhar nos olhos,
de reparar nas caras esquisitas,
gosto até do tédio
das revistas velhas
sempre de direita,
de banalidades,
que folheávamos
esperando o tempo.

Outro dia me explicaram
o que era Pokemon, pokebola
e não fez sentido.
Nenhum.

Daí às vezes me preocupo
de nos vigiarem
e seguirem
e matarem
às vezes de outra forma.

Mas então, o que fazer,
todos estão nessa coisa
de teclar com polegares,
tirar fotos de si,
usar ainda mais palavras inglesas.

Comprar comprar comprar.

Tenho que dizer onde estou
pra pegar um táxi mais barato,
pra namorada ficar tranquila,
pra provar qualquer coisa.

Não quero e me lembro
dos dias na estrada
por aí, pelo mundo,
inseguro e sem medo.

Eram outras esperanças dez anos atrás.

Penso mesmo em plantar umas alfaces,
colher e sujar a mão de terra,
e ficar ali num canto
vendo os outros passarem
tão rápido.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quanto Vale?



Quando criança aprendi
na escola dominical:
“o verbo se fez carne
e habitou entre nós”.

Mais tarde entendi
o verbo Jesus
era também palavra
era também razão.

Hoje quase preciso me desculpar
por saber do logos grego
ofende quem não sabe.

Perdão, perdão a todos,
eu gosto de aprender!

Poesia, um amigo ensinou,
é feita de imagens
e nunca me esqueci.

A metáfora salta do papel
grita detrás da tela
urgente, urgente!

Moisés abriu o mar,
passou na novela outro dia,
liberdade ao povo de Deus!

O mar de lama
era imagem
virou verdade.

A culpa só pode ser dos céus
os milagres bíblicos
não se reeditam.

Esqueceram de passar
na tampa da represa
o sangue dos cordeiros.

O Bento foi soterrado,
que tragédia – natural!

A bênção dos tempos modernos
é só para aqueles, bem devotos,
que buscam em primeiro lugar
o lucro, o lucro.

It’s only business, my friend!
Dizem os acionistas
correndo atrás do tempo
perdido.

Já não há mais tempo
para cada coisa sob o céu.

Não há mais céu
nessa nova religião.

A culpa é dos profetas,
só pode,
não tocaram a sirene.

A culpa é do destino,
tem de ser,
de quem mais?

O mar de lama
invade a vida
de súbito.

Moisés já é passado
o novo deus
não encarnará.

Não há razão
para explicar,
as palavras
vão sumindo.

Cada um dos mortos
dói em infinitos corações.

Bem que Jesus mesmo se cansou
“Até quando terei que suportá-los?”

Até quando nos suportaremos?

Quanto Vale a vida humana?
Quanto Vale um rio?
Quanto Vale um peixe morto?
Quanto Vale a água?
Quanto Vale a vida?
Vale?

O verbo habitou entre nós
mas não vimos a graça e a verdade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Jesus no coração


Para Kaithy e Luís

Pus o Cristo no coração
num sabão com Jesus
inscrito em baixo-relevo.

Uma metáfora musical
fez-me lembrar
Oh, happy day!

Os pecados limpos,
a imagem do grande abismo
chegou-me de repente.

Disse aos amigos,
imitando C. S. Lewis,
iria buscá-los no Inferno.

Ela disse que preferia ficar,
mas então contei
como eram as coisas:

não havia fogo nem festa,
só monotonia cinza
e burocracia eterna.

Perguntei-lhe se ainda
insistiria em se alojar
mas não me respondeu.

Acredito que não.

Alguém prefere estar
sozinho entediado
quando acenam-lhe
do outro lado da rua
de onde há festa e alegria?

Goiás, 31 de agosto de 2015.

sábado, 2 de maio de 2015

O governador se defende dos mestres

Um livro lido,
um punho erguido,
um coração pulsando
são armas de ataque.

As palavras ditas,
os gritos em coro,
as almas em uníssono
são armas de ataque.

A sequência caótica dos dias,
o amigo desistente,
a tristeza dolorida
são armas de ataque.

O roubo do futuro,
o ódio recebido,
o desrespeito
são armas de ataque.

O governador injustiçado
apenas se defende
dos mestres indignos.

Os policiais ameaçados
apenas se defendem
dos mestres violentos.


A bomba explode
obedecendo ordens de defesa.

A arma atira
obedecendo ordens de defesa.

O cão ataca
obedecendo ordens de defesa.

Todos se defendem
dos mestres-monstros
ameaçadores.

Bem defendidos todos,
aprovam o roubo
e celebram o esquecimento futuro.

Todos bem seguros,
garantida a ordem,
entrevista coletiva:
black blocks infiltrados,
tropa de choque com medo,
pequenos excessos
talvez investigados.

Na praça, na vida de verdade,
o sangue pulsa,
o sangue jorra,
mancha as camisas,
marca o chão.

Sangue das veias
de pessoas vivas,
não a tinta vergonhosa
da mentira sempre infame.

Vinte policiais feridos,
diz o governador
na realidade inventada
do mundo dos jornais.

Na praça, na vida de verdade,
o contador impreciso de feridos
apenas cresce:
cem, duzendos, trezentos...

O assessores sábios
apenas expressam
a alegria incontida.

Os mestres são culpados
antes de tudo
pelo ataque.

Somos nós os culpados
por nossas feridas
e pelo sangue no chão.

Duas bombas, uma arma,
valem mais que um professor.

Depois de tanto ódio
nosso lamento é coitadismo,
devemos retomar a ordem,
trabalhar por amor.


Não se pode atacar assim
a polícia, os deputados, o governador,
a injustiça não pode prosperar.

O correto é obedecer calado,
abaixar a vista,
aquietar o coração.


São metáforas apenas
a bomba de efeito moral,
o gás lacrimogênio,
as armas não letais.

O sangue
pulsa nas veias,
o coração apertado
às vezes explode.


O punho erguido
nem sempre aguenta.

Nesses tempos difíceis
tudo bem chorar.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eduardo Galeano

América, Latinoamérica!
Hoje choramos todos por ti,
caro amigo distante.

Disseste palavras doces
e firmes como um punho erguido,
cantou nossos lamentos
e desvendou-nos a alma.

Choramos todos por ti
porque é uma perda
dessas irreparáveis,
de entristecer o continente
mas também as cidades,
as vilas e famílias.

Tu me ensinaste esse lindo idioma
dos povos oprimidos se unindo,
da luta solidária pela vida,
as vidas pequenas
dos fracos e sensíveis,
das árvores e dos bichinhos.

Encontrei em tuas palavras
os encantos da arte,
muitas vezes o mundo se criando,
essas coisas pequenas de chutar bolas
transformadas em grandiosas
pelo amor que emana de toda gente.

Soubeste amar mais
essa grande América irmã,
da alma desse lugarejo
no sul do mundo
escondido entre gigantes
e valente!

Olhamos todos com mais carinho
Uruguai, nosso amigo,
por tua causa.

Descanse, meu querido.
Os tempos estão difíceis
e já é tua hora de partir.

Choramos mas entendemos.

Vá em paz.

Aqui ficam poesia e luta,
juntas, como você fez
melhor que ninguém.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Promessas não cumpridas de palavras escondidas.



Acontece com todos nós
essa falha simples
de fazer promessas impensadas
e não cumpri-las sem peso.

Não falar demais,
ser mais discreto,
ouvir em silêncio
são algumas das minhas favoritas.

Claro, não as cumpro.

Incapacidade crônica,
auto-engano,
tanto faz.

O fato indiscutível
é o não cumprimento das promessas.

Pesa sobre mim às vezes
algo mais grave.

Pensei comigo sozinho
sobre não escrever poemas para os mortos.

Minha mãe, morta, recebeu muitos deles
até que me cansei.

Daí então essa promessa meio oculta,
dessas coisas que silenciamos.

Planejei, refleti, imaginei palavras,
escutei os sons
e vi bem claro
a emoção dos vivos
lendo sobre si.

O tempo,
esse velho traiçoeiro,
impediu-me o intento.

Meu pai se despediu de súbito
e me forçou a fazer outra vez.

Descumpri minha promessa
porque as palavras,
essas ali de dentro,
ficam presas até que explodem.

Não é nada como um adeus.

É o silêncio repentino
da vida em seu fim
quando a gente não espera.

Goiás, 6 de dezembro de 2014.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Lembranças de Macaé

Era um dia desses, cinza
chuva com pedacinhos de petróleo
vindos do fundo do mar
em plataforma flutuantes.

Era uma dia assim, sujo,
de sarjetas empoçadas
fuligem terra água-suja
carros passando e sinais fechados.

Era um dia de viagem
entre-caminhos procurando
desencontrando pessoas
mal-humoradas da vida.

Era um dia um pouco torto
descolorido em preto e branco
apenas isso e o mar azul distante
bem ali, ao lado da rodoviária chuvosa.

Era uma noite plena
de ruídos desconhecidos
o sono incompleto
em roncos duplicados.

Foi assim, um diazinho
desses em que dá tudo errado
e chuva cai devagarinho
e a sujeira da cidade
se acumula nas ruas
e a pousada barata
é uma caverna melhorada
e as pessoas te destratam
e as informações são engano
e a família te despede, hostil,
e você parte então
em busca de um lugar melhor.
 
 Goiás, 29 de novembro de 2013.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Segredo


Descobri um segredo antigo
num livrinho velho e gasto,
li e reli muitas vezes
como uma luz acesa no escuro.

O medo é aqui dentro
a solidão da vida
a angústia de não compartilhar
é alguém do nosso lado
e a gente não conversa.

Como é difícil abrir o coração!
Esses olhos que me olham
me olharão quando eu falar de mim?

Precisamos uns dos outros
de amizade verdadeira
de ouvidos abertos
e mãos que nos toquem
e braços que envolvam.

Coragem, nos dizem alguns, coragem!

Vamos todos à luta, está bem! Vamos!

No entanto
o que afasta mesmo o medo
é o amor.

Goiás, 31 de julho de 2013.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

As mãozinhas pequenas


Vendo vídeos antigos
pessoas roupas corpos
rolavam soltos os anos 80.

Super 8 digital
não me interessa muita gente
procuro meu pai e minha mãe.

As mulheres com roupas de cintura alta
os homens de bigode e óculos ray-ban
não sei os nomes, não quero saber.

Quero meu pai filmando amador
quero minha mãe entretendo os convidados
sorrindo para câmera.

Quero sentir as ondas de Itapuã
batendo no corpo sob o sol
as pernas ainda fracas
de quem aprende a caminhar.

Quero minhã mãe de maiô
me segurando pelos braços
contra o mar inclemente.

Quero meu pai me levando na canguta
e as minhas irmãs, um de cada vez,
e rodando pelos ares seguro por braço e perna.

Eu era então um avião que ia longe
era um desbravador dos mares infantil
uma criança que rompeu as trompas ligadas.

Não há planejamento estratégico da vida
ela vai, vem e muda o rumo
como as ondinhas na beira da praia.

Eu era uma criança
e ainda sou
procurando, as mãozinhas pequenas,
onde segurar pra não cair.

Goiás, 15 de julho de 2013.

domingo, 30 de junho de 2013

Isso é tudo



Minha mãe não viu
quando virei historiador
nem a viagem pela América
de mochila nas costas
em caronas sem rumo.

Foi ali que eu virei gente
ela não viu.

Minha mãe teria medo
e se preocuparia
e diria que não
e sofreria as angústias de mãe
nessas horas quando o filho
sai pro mundo sem rumo
pra fazer o que se deve.

Meu pai com orgulho
chamava de périplo.
Não me consta que tenha tido medo.

Trouxe-lhe uma máscara inca
pesou na mochila-casa desde a Bolívia.

Minha mãe não viu
quando me tornei professor
quando me tornei mestre
e escrevi na tese
uma linhazinha para ela.

Não, ela não leu.

Minha mãe não me viu
virar motociclista
não conheceu minha mulher
largar tudo e vir pra Goiás
tomar banho de rio
o casamento
planejado em uma semana.

Não viu.

Meu pai, ele viu.

Veio a Goiás visitar
passeamos juntos
comemos a comida boa
feita em casa
vegetariana.
Não sentiu falta da carne aqui.
Mas quis chuveiro elétrico
e me fez comprar.
Deu de presente uma chaleira
nós nunca usamos.

Salvador 2009,
de carona com Cássio
depois da Chapada
chegamos em Pituaçu
na casa-castelo
só uma noite
o velho aparelho de som,
ele disse, ficaria comigo.
Foi bonito, Cássio contou,
deve lembrar melhor da imagem
eu lembro das palavras.
Era um querer sem vontade
a herança...

Em 2012, Salvador – Goiás
mandou-me o som
como se dissesse
estou indo, estou indo,
aí está, cuide bem, divirta-se
que eu já vou.
E eu, não usei direito
como não querendo
pensando no sentido
no adeus.

E foi assim mesmo
em cada passo, cada coisa
com o cuidado meticuloso
de etiquetar as caixas
disse adeus pra cada um
e apagou-se a luz
de uma só vez.

De manhã a ligação falhou
mas ouvi bem a sua voz
e não havia nada errado.

Fizemos todos o melhor possível
e não há culpa nem rancor
é só a lágrima que escorre
em cada foto
em palavras de bilhetinhos
na ligação que não chega mais
no “sim” ao telefone
no orgulho expressado
no respeito à diferença
na serenidade do amor.

Meu pai não me viu comprar um fusca.
Será que ele diria para comprar um mais moderno?
Sentiria orgulho?
Pensaria bobagens?

Meu pai não vai ver meus filhos
não vai ver quando eu for doutor
não vai ver a construção da casa
o futuro que eu nem sei.

Não posso mais pedir seu conselhos, pai,
ouvir a sua voz calma de experiência
mesmo quando dizia não.

Você incomodava às vezes, pai,
e eu também te irritava, eu sei...

Há tanto de incompleto na vida
e é só o tempo passando.

Meu pai não viu a explosão popular
essa mesma de agora sem partido
de qualquer um na rua,
saberia dela pelo Facebook
emitiria opiniões, talvez,
não posso brigar com ele
defendendo os arruaceiros
que ele não viu na TV.

Foi bom isso
para todos é claro.

Aqui em mim
despertou-me do torpor
como se me fizesse ouvir
um conselho simples
deixado num bilhetinho
que guardo com carinho:

“Seja feliz ao teu modo
e viva a vida da melhor
forma possível”

E isso é tudo
o que tenho agora.

Goiás, 30 de junho de 2013.

terça-feira, 18 de junho de 2013

É a vida, amigo

Eu sou a faca à noite
fogos de artifício sem festa
rasgo furo explodo
em multidão somos assim
fogo na rua
lixeirinhas quebradas
oh, vândalos
é melhor, muito melhor,
que não fazer nada.
Não é metafísica
não é facebook
não é realpolitik
é gente na rua
quer ir vir onde quer
quer tarifa zero, meu amigo,
tarifa zero.
Não entendeu?
Difícil...
Utopia, impossível, irreal.
Jovens sonhadores,
oh, bonito!
Vamos lembrar, meu amigo,
jornada de 44 horas
descanso no domingo
salário mínimo
licença saúde, maternidade
o pai morreu,
uns dias de folga pelo menos,
pra aplacar a dor.
É a vida, amigo, 
a vida impossível
uns tempos atrás.
É tarifa zero sim!
É a copa pra… (ponha o palavrão que quiser aqui)!
Educação, saúde, 
é isso tudo.
Não é só o aumento
mas é o aumento sim!
E muito mais!
Muito mais!
É a vida
pra ser vivida
sofrimento já tem
não precisa mais.
Sobrevivência?
Cacete, sobreviver?
Não!
É a vida
pra ser vivida
é muito mais!

Goiás, 18 de junho de 2013.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A vida quando acaba


Um pote de geleia de cacau
ele me deu um mês atrás
vou comendo com biscoitos
vidro cheio na mão
– na infância ele brigava
se eu ficasse assim –
a geleia vai acabando
e me dói muito
não é o doce
a vida quando acaba
deixa um gosto amargo
que demora pra sair.

Goiás, 10 de junho de 2013

sexta-feira, 15 de março de 2013

Cerrado ainda tem



Revivo um pouco de mim
a cada vez me lembro,
não vejo o antes,
sou eu, ali, acenando
pequeno de cabelos loiros
em Itapuã antes da fama,
o joelho esfolado
na perseguição da irmã
bicicleta, Rua José de Oliveira Franco 1754,
o campinho e o brejo...
terminal de ônibus
na cidade do bom transporte.
E mais ao sul,
em cima do telhado
conversas de crianças crescendo
tentando ver estrelas cadentes,
e São Paulo capital,
correndo pela cidade
maledetti paulisti
no ôco do mundo,
e então Barão sou eu,
bicicleta outra vez
conversar no banco
pisar na terra
até ameaçar o asfalto,
os carros muito grandes,
as caronas ralinhas,
bora de vez,
cerrado ainda tem,
serra, água, mato,
o bico do tucano
todo dia no céu.

Cidade de Goiás, 15 de março de 2013.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Umas histórias


Quanto estava na estrada
andando pela América
descobrindo quem era
– ah, eu me lembro bem
da visão delirante da Patagônia
a chegada em Bariloche
o Nahuel Huapi impossível azul –
escrevi poemas ruins.

Escrevi poemas ruins
porque não sabia o que dizer.

Um hippie nos disse
– esqueci de contar
viajava com um amigo
hoje casou, dois filhos,
vive em Madison, Wisconsin,
conheceu a mulher no Chile,
depois de Bariloche,
de dormir na cordilheira e
um velhinho dizer
pra não fumarmos maconha
na caçamba fechada da sua caminhonete
com banquinhos de madeira adaptados,
vocês não vão entender, eu sei,
mas a gente nem fumava
era só barba, cabelo, sujeira –
mas o cara disse
que não tínhamos roupas
para aguentar o frio do inverno
não lembro se foi em Buenos Aires
ou depois de Algarrobo,
a capital nacional do alho
onde o Che Guevara
arrumou sua motocicleta,
ou da carona com Marisol
que não deu certo
e não chegamos a Choele Choel.

Eu casei, Marisol casou,
uma amiga de Las Grutas
agora vive em São Paulo.

Onde está o professor sulafricano
conversamos lá em Machu Picchu
eu subia sozinho
as picadas para Huayna Picchu
e não sei como
falamos sobre o Apartheid,
o Brasil é a África disfarçada
sem Desmond Tutu.

Onde estão Sandra, Etienne, Lucho?

Está bem, a Sandra está por aí,
nos falamos há alguns anos
e vi umas fotos suas no Facebook.

As amigas suecas
o futebol na Bolívia
– ah, trabalhei
porque o dinheiro acabou.

Karen, a feminista,
nos levou para conhecer Lima
quanto abrigos recebemos
quantos nomes esquecidos
quanta coisa persistente.

Fui ver a América
e encontrei.

Aí é assim
quando a gente
não sabe o que dizer
conta umas histórias
e vive a vida
o melhor que pode.

Goiás, 15 de fevereiro de 2013.

Caminhando

É como quando você se lembra
e vê a vida indo assim
passando como sempre
um filme na madrugada
solidão na quinta à noite
serei Cristo crucificado
ou Jesus com as crianças.

Meu pai tentava me ensinar a jogar bola
eu criança no parque Barigui
queria andar de rolemã
tinha medo do skate
achava patins coisa de playboy.

Sempre passo a mão nas folhas
quando vou banhar nos rios
lixeira, aveludadas, duras
aguentam todas o sol.

Às vezes de manhã
faço uma oração,
às vezes choro sozinho
e ninguém sabe,
o futebol me cansa
gosto dos livros
mas me cansam,
o pior é pensar num ateu
quando quer agradecer pela vida
e não tem com quem conversar.

Quem pode convencer um comunista
ou como mudar a mente de um liberal
ou será meu-deus-do-céu
que o mundo vai ser diferente...

Esperamos
enquanto isso
vamos caminhando.

Goiás, 15 de fevereiro de 2013.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Tapiocaria


Trôpegos pelas ruas de pedra
chegam os poetas, os atores, os cantores,
vêm das praças, das calçadas e dos becos,
em trupe vão chegando
e solitários, ora pois,
todos juntos numa esquina.

Os pintores comparecem
fotógrafos, cineastas,
e salta um livro
a voz liberta os versos
cantigas não só de amor
gestos naturais
mas bem pensados
no esperadouro da arte
a cidade resplandece.

A querença de fazer
vai agarrando a gente passante
aos ouvintes pouco a pouco
as letras espargidas
contaminam
vão todos
pulsando o coração
fortes, tímidos até,
erguem vozes
o silêncio escuta
mastiga engole.

Um porto de esquina
bons ares, comida, bebida
sustança da barriga
gula de arte
enormidade de vida.

Geraldo Witeze Junior
Goiás, 4 de fevereiro de 2010.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dilemas do futebol


De pequeno aprendi com minha mãe
– hoje só saudade –
e quando vi Zico e Júnior jogando
Vamos Flamengo!
Mas Luxemburgo durante
faz perder vontade
o grito sufoca.

Dentro de mim os anos em São Paulo
rejeitam o Corinthians campeão
quase chego a torcer pelo Vasco
mas é Vasco e Flamengo,
oh céus!

Mas hoje se foi Sócrates Brasileiro
corinthiano, para azar dos infiéis
e que bonito o punho erguido no silêncio
no círculo central do clássico.

E a Libertadores, como então?
outra vez quero Flamengo
mas Luxemburgo sufoca
Vai, Coxa, esquece o racismo
e lembra da glória de 85
quando o Bangu ainda era grande!

Vai Figueira, da ilha da magia!
Vai Inter, mas é Grenal!

Aquiete-se, São Paulo
recolha-se com vergonha
do magrelo Rivaldo.

Não quero Corinthians
mas hoje Sócrates
descansa feliz
com o punho fechado
o peito aberto
que em nós é lamento
e saudade.

Goiás, 4 de dezembro de 2011.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Poema para Belo Monte

Estão chamando para a guerra
longe, muito longe, no imenso verde
dos rios infinitos, da voragem
cheia de vida delirante fantástica
chama há tempos, gritam
pela paz mas veio a guerra
antes de mim tempo atrás
agora alisto-me pacifista voluntário
corro para o combate
junto aos meus desiguais distantes
os invisíveis sob o grande mato
as crianças nadam nos rios
os homens de boca grande
pintam a cara de preto
as mulheres impunham seus facões
não os entendemos bem
os ribeirinhos invadem o canteiro
os artistas juntam-se em palavras
o vídeo, o protesto, o chamado
ecoa desde sempre
estão chamando para a guerra
é o ancestral que geme no leito
do seu sono eterno inquieto
é o rio que corre chorando
água do lamento dos povos
a floresta grita desespero
Tuíra empunha seu facão
Raoni convoca todos e avisa
vamos morrer ali
perto ou longe
juntam-se os ribeirinhos
a voz cresce CRESCE
o Xingu não morre fácil
e aquela gente sem nome
não vai fugir assim
ao urro surdo do senhor
preocupado em comprar e vender
não vai deixar vencer
a ignorância cega da ganância
intolerância velha dos covardes
temos morrido aos poucos
há tempos sem saber
como não houvesse outro caminho
sem pensamento ou coração
seguindo inertes ao deus maldito
demônio disfarçado enganou
estão chamando para a guerra
queria paz mas veio a luta
não era um deles e agora sou
sou da floresta e do Xingu
sou caiapó sou ribeirinho
vamos todos agora sem tardar
para a luta.

Goiás, 16 de novembro de 2011.