terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Questões essenciais

Cuspo as vísceras de lado
um grito de angústia
grito
grito ecoa.
Uivo como um lobo
como um poeta,
espero como os urubus
ou como os flamingos,
bato palmas, aceno
sou um bom mestre aprendiz.
Um pouco das coisas
se resolvem com o tempo,
outro tanto com uma
boa noite de sono
e ainda há problemas
que com uma refeição completa
são resolvidos.
Aí restam apenas
as questões essenciais.

Governador Valadares, 23 de dezembro de 2008.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Não sei exatamente o que fazer

Já foi a segunda vez que aconteceu
e de novo eu não soube o que fazer,
e como me acontece, cada vez mais
não saber exatamente o que fazer.

Eram meias à venda em frente de minha casa
e perfume, protetor solar, e essas coisas
que eu não comprei e fiquei pensando
no desejo de ajudar a senhora
andando pela rua com essas coisas pesadas
levando a vida, trabalhando duramente,
e outra vez vem todo o mundo em minha cabeça
toda a miséria, toda a amargura, toda a podridão
e tantas coisas para fazer, tantos lados para ir,
e eu não sei exatamente o que fazer.

Desejo, e só o desejo não é suficiente.

Enquanto eu penso em minha angústia
a mulher que me ofereceu perfumes
segue andando pela rua
trabalhando, sim, trabalhando duramente
e eu não sei exatamente o que fazer.

Podia, pelo menos, ter oferecido um café,
eu, que já estive do outro lado,
por incrível que pareça sinto saudades
de pedir o pão velho, o resto do almoço,
da vida simples.

Como é bom ouvir um sim
você até esquece os infinitos nãos
e se delicia com a caridade,
com a atenção.

Da próxima vez, pelo menos,
vou oferecer um copo d'água
e pode ser que depois disso
me venha alguma boa idéia na cabeça.

Campinas, 12 de dezembro de 2008.

Porque

Ele não disse nada
e eu, talvez, também
não devesse dizer.
Os olhos arregalados
a surpresa atroz
revelaram-se nos outros
ao redor, que viram
a morte carregando um homem
enquanto os trens deslizavam
pelos trilhos do metrô
e o mundo não podia parar.
Um terrível engano,
um pedido de desculpas,
é o mundo moderno
que deixa as pessoas
highly stressed
a ponto de matarem uns
aos outros sem saber
exatamente
porquê.

Campinas, 12 de dezembro de 2008.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Coisas que detesto em São Paulo

Detesto ter que marcar hora para visitar um amigo,
não poder pedir um favor porque é indelicado,
viver lançando indiretas quando preciso de ajuda.

Sinto falta de aparecer à meia noite
tocar o interfone, “Sou eu, abre”.

Ah, não, agora são homens e mulheres de família
e tudo tem que ser certinho, regrado
e tão chato, mas TÃO chato,
que chega a ser insuportável!

IN-SU-POR-TÁÁÁÁ-VEL!

Assim mesmo, com vontade de gritar!

Como me dá raiva
esse monte de conveniências
que servem para deixar a vida feia
e afastar velhos amigos.

Onde estavam os sorrisos
agora estão as responsabilidades tediosas
e inventadas
porque a vida
não precisa ser assim.

Conforto, planejamento,
aos diabos!

Agora você deve fazer esse teatro
e viver sozinho
porque a vida é assim.

Como me cansa tudo isso
e me deixa infeliz
com vontade de ir embora
e ficar sempre indo
e não voltar nunca mais
para lugar nenhum.

Mas queria levar junto
algumas pessoas
poucas, pouquinhas
com quem posso falar
e ser e viver
e é simples, é gostoso
e bom como amizade de criança.

Campinas, 6 de novembro de 2008.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O mundo está melhor

Não importam as pessoas
importam os resultados
mesmo que os resultados
não melhorem em nada
a própria vida das pessoas.
Afinal, como medir
a melhora na vida?
Então medimos os resultados
fazemos as tabelas e os gráficos
e vivemos uma grande mentira
alardeada pelos quatro cantos do mundo
como a maior das verdades,
que a vida está melhor,
o mundo está melhor,
tudo está melhor!
Que bom é o progresso,
a indústria, o agronegócio!
Como aquela compra
de um banco por outro
vai melhorar a vida de todos!
Tudo está melhor, dizem,
mas é só abrir os olhos
e dar uma olhada rápida
para ver que não é bem assim.
Só que isso não importa,
a verdade vem da televisão
ou dos jornais ou da internet,
isso sim é a realidade,
a fome arranhando o estômago – não
o menino do 3º colegial que não sabe ler – não
a estupidez gritando nas ruas – não
o ônibus lotado, o trabalhador esgotado – não
as pessoas não sabem mais conversar,
faltam palavras para dizer o que querem
então não dizem, e depois se acostumam
e não querem mais falar – nada.
Nada disso é verdade
são só coisas que as pessoas vêem por aí.
A verdade está em outro lugar
para vê-la é preciso muita tecnologia
não muita inteligência
é só ligar a televisão
sentar e esperar
que a verdade vem até você
pronta pronta pronta
e você nem se cansa com ela.
Como mundo está melhor,
como a vida está melhor,
tudo está melhor!
Não dá pra ver
mas está, acredite,
é verdade.

Campinas, 05 de novembro de 2008.

Pimentões e códigos

Outro dia comprei dois pimentões
um amarelo e outro vermelho
os dois tinham exatamente
o mesmo peso.

Quem me avisou foi o caixa do mercado.

Hoje fui pagar a conta da compra
era outro mercado
e outra pessoa no caixa
estava mal-humorada
mas então ela me disse
O preço é igual ao código do seu cartão
e até sorriu, e eu, depois,
Boa noite, bom trabalho.

Andando até em casa
com as coincidências na cabeça
Os deuses dos mercados
querem me fazer sorrir
e suavizar o trabalho
dos caixas que digitam o cpf
pra sair na nota fiscal.

Campinas, 02 de novembro de 2008.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Assim

Assim
a palavra vem vindo devagar
na insônia no ônibus abrindo o portão
a vontade de dizer
e vem o poema a prosa a história
o sentido
vem devagar e vai
até onde pode ir
então desaparece
tranqüila suave
assim
assim...

Campinas, 31 de outubro de 2008

Um romântico moderno

O gosto da infância num doce
o abraço do amigo do peito
o beijo da namorada
são dessas coisas
que vão ficando... ficando...
e nunca passam.

O embalo de sábado à noite
a menina bonita na escola
a vergonha na sala de aula
aquela vontade de ir embora
está lembrado?

A primeira vez de uma coisa
pode ser tão boa
quanto a segunda
a terceira
e então nos cansamos.

Cansamos de ver o sol
se levantar todo dia
e ver a lua cheia
se levantar toda noite
e de ouvir as mesmas histórias repetidas.

Então ficamos sem tempo
e nos lembramos
do que agora não temos
e voltamos a sonhar
com as coisas do passado
que tão bonito e grandioso
jogamos fora.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um domingo da infância

Foi na infância
lembro vagamente
de um dia de sol
fui para a igreja
domingo de manhã
e me acompanhava
uma sensação inesperada
súbita, agradável
disse a todos

Estou feliz hoje!

e pelos dias da vida
consigo ainda lembrar
daquele estremecimento
me percorrendo inteiro
mais forte que um arrepio
saltando para fora
num sorriso
numa voz de criança
dizendo a todos

Como estou feliz hoje!

ainda me lembro
do gosto bom
daquele dia
domingo de manhã
sol e céu azul
pode ser só a imaginação
mas carrego comigo a certeza
de lá trás na infância
ter provado
o conceito abstrato
às vezes tão distante
e incompreensível
que os homens chamam
felicidade.

Campinas, 15 de outubro de 2008.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A chuva molha nossa cara

Como se a chuva não molhasse
ao cair em nossa cara,
como se não fosse verdade
tudo aquilo que sabemos,
como se o mundo fosse agradável
e as pessoas fossem boas,
como se a natureza
não fosse violenta,
como se a gente acreditasse
em todas as responsabilidades.

Assim, assim, assim.

Seria bom dizer não,
saber quando dizer sim
e ter um lugar seguro
pra se esconder quando cair a chuva,
e se abrigar dos trovões
com um chá quente,
um cobertor bem gostoso,
uma boa companhia.

É o que parece,
mesmo sem ver um outro mundo
lutamos pela vida
querendo desistir,
segurando com força,
como se a chuva não molhasse
quando a gente está lá fora
esperando ela chegar.

Campinas, 30 de setembro de 2008.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Pouco a pouco

Sabe que num dia desses
você começa a suportar
a voz um pouco alta,
e depois o grito.
Então você fica rouco,
tolera a tensão constante
e já não diz boa noite,
pois não podem ser boas
as noites de uma vida triste.
Em seguida vem o cansaço,
a insatisfação com cada coisa,
a depressão, o desespero,
e o tempo vai passando,
vai comendo a vida.
Até que você perceba
que lhe tiraram tudo
pouco a pouco
e agora, no fim
você já não é mais o mesmo.

Campinas, 19 de setembro de 2008

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Saí pra ver a América

Eu vi um homem passando por mim
e de manhã ouvi um pássaro cantando
uma canção alegre.
Saí pelo mundo
fui ver a América
e encontrei coisas pequenas
e coisas grandiosas.
As pessoas, o dia-a-dia
na minha frente
perto perto,
toquei, senti
a cordilheira, os grandes lagos, o deserto
senti as pessoas
almas desesperadas
pelo mundo que muda rápido.
Dividi uns pãezinhos com desconhecidos
numa praia num dia de sol,
várias pessoas recusaram ajuda
outras tantas me levaram a suas casas
e dessas me lembro os nomes, os rostos
os sorrisos na imagem que ficou para trás,
ganhei tanta coisa, tantas vidas
tocaram em mim lá dentro.
Saí para ver a América
e dentro dela vi o mundo inteiro.

Campinas, 2 de setembro de 2008.

Vala comum

As obras de Lorca
não podem estar completas.
Ontem eu te condenei
pelo que hoje eu mesmo fiz.
Na cova sem nome
as almas atiram seu ódio
e pás de cal alvíssimo
para apagar a memória.
Um conta-gotas
para encher o oceano
e a vida se esvai numa lágrima,
numa canção de amor.
Poderíamos enviar cartas
em branco
para que os outros pudessem
imaginar livremente
o que quisessem ler.
As palavras, a música,
o silêncio.
As obras de Lorca não podem estar completas.

Campinas, 16 de setembro de 2008.

sábado, 30 de agosto de 2008

Um dia de sol

Eu preciso ficar só
e caminhar, caminhar, caminhar
por uma estrada de terra
de asfalto, de mar,
ir como se fosse eu
a rua o céu e o ar,
e a vida é assim,
é deixar pra trás
e esquecer o que se vai,
é uma despedida
um olá e um silêncio
num dia de sol,
um sol na guitarra
e um dó maior
pra terminar bem
com um sorriso
e um abraço de amigo.

Campinas, 28 de agosto de 2008

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Nada mais

Queria um poema que fosse eu,
fosse tudo que já fiz
e deixei de fazer.
Palavras claras como o meu agora
sem que nada mais
precisasse ser dito.

Campinas, 14 de agosto de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Esperava

Enquanto ela esperava
o tempo passar
não se deu conta
de que chovia
pela primeira vez
nos últimos trezentos anos
e que a chuva
significava bons presságios
num lugar tão seco
de água e compaixão.

Enquanto esperava
o tempo passar
não viu as flores do caminho
se abrirem de uma só vez
oferecendo às abelhas
seus odores coloridos
e os pássaros em revoada
bailarem no céu.

Esperava
o tempo passar
e doía-lhe a mente
por saber
que não retorna
o tempo passado.

Enquanto chovia,
voavam os pássaros,
se alegravam as gentes,
abriam as flores
e as abelhas zumbiam
ela esperava
o tempo passar.

13-01-2008

1357

Depois de Hélio ter morrido não havia aparecido ninguém que matasse mais rápido que Genalva. Está certo, Hélio nunca tocou numa arma de fogo e podia atirar três facas com perfeição antes de o terceiro oponente alcançar o coldre, mas não se trata de comparações, pois ao mesmo tempo em que o homem das mãos de relâmpago foi o maior agora era simplesmente um recordo no povoado de 1357 habitantes. Já fazia 42 anos que esse número não mudava. No dia 17 de janeiro de 1848 três homens partiram para nunca mais darem notícias, Hélio morreu e José Antônio nasceu. Ele foi o único a perceber que desde seu nascimento eram sempre justamente 1357. Também constatou que, coincidência talvez, sempre que alguém nascia era certo, aparecesse ou não nos jornais, Genalva matara alguém com um tiro posto mi-li-me-tri-ca-men-te no meio dos olhos.

A partir do dia em que se deu conta do número, a vida de José Antônio não foi a mais mesma. Tornou-se uma obsessão compreender porque diabos eram 1357. Isso aconteceu quando tinha 7 anos, numa tarde sem folhas do outono mais alegre que a cidade teve depois da morte de Hélio. O pequeno jogava sozinho com um estilingue, tentando caçar o último pica-pau de cabeça alaranjada da região e tropeçou num jornal que continha os dados do último censo, as notícias sobre a última safra de soja e a foto do aniversário de 23 anos de Genalva Gomes. José Antônio já sabia ler desde os 4 anos, mas essa foi a primeira vez que algo escrito chamou atenção de seus olhos: era o número de sua vida.

Ainda que nos 35 anos seguintes não se tenha feito nenhuma contagem populacional ele manteve, desde aquele dia, o controle absoluto de todos nascimentos e óbitos na cidade. E compareceu a cada funeral, sempre levando uma rosa branca sem espinhos quando a morte era de criança. Sabia onde estavam enterrados os 232 mortos do período e os epitáfios, severos ou graciosos, escritos nas lápides tristes estavam, palavra por palavra, todos, contidos em sua prodigiosa memória. Lamentava profundamente o fato de que estava nos planos da prefeitura construir um novo cemitério. Quando completou 12 anos descobriu o túmulo de Hélio e passou a visitá-lo respeitosamente uma vez por ano, exatamente a 17 de janeiro. Nunca levou nada, era ele quem recebia, pois o lugar era o único onde se sentia em paz, e estar lá às 5h48, no seu aniversário, converteu-se em um ritual tão importante que, certa vez, o fez sob uma inesperada e catastrófica tormenta de verão que resultou no desaparecimento de 5 bebês, todos nascidos na semana anterior na qual Genalva não matara ninguém.

José Antônio tinha em seu poder a última das 7 facas usadas por Hélio durante sua vida. O matador a considerava bendita, porém foi ela que selou seu destino. Aliás, não se pode falar em 7 facas usadas, senão em 6, já que a última nunca cortou couro de homem. Hélio a mirava com olhos de fogo e, num desses momentos de deleite, perdeu seus instintos de bicho selvagem e foi morto com uma machadada na nuca por um camponês qualquer. Estava na hora. Nunca houvera matador com mais de 50 anos e 2 meses antes Hélio cumprira 67 anos. Estava velho. Matava com igual precisão, mas estava velho.

Ninguém sabe quando ou porque Genalva Gomes converteu-se de moça virgem em mariposa matadora, mas a cidade lamentava unânime o fato de que seu noivo partira para conhecer o mundo e resolvera, depois de atravessar 3 oceanos e falar com as baleias patagônicas, que já não queria se casar. Ela tinha quase 16 anos na partida e esperou-lhe por muito tempo até que uma carta deu o aviso da inutilidade de sua espera e da solidão eterna de seu amor. Ela, assim como José Antônio, percebeu que a vida de cada pessoa nada mais é do que seus recordos, e se alguém se alguém se esquece do passado já não faz parte do mundo dos vivos. Tratou então de esquecer, conseguindo dissolver as memórias incômodas.

No dia em que completou 42 anos José Antônio recebeu a alegre notícia, logo após chegar de sua visita ao túmulo de Hélio, de que sua irmã estava grávida. A partir de então começou uma frenética e desesperada contagem regressiva porque estava certo que Genalva iria matá-lo exatamente no dia do nascimento do seu primeiro sobrinho. Os meses não demoraram a passar. O dia marcado para o parto foi a única vez em toda sua vida que visitou o túmulo de Hélio fora da data habitual e também a primeira em que caminhou armado pelo povoado. Levava a faca, a última faca.

Sentou-se na lápide, esperou até que anoitecesse. Quando começou a crer que suas suspeitas eram infundadas e precisamente no momento em que seu sobrinho veio à luz, o cano gelado e silencioso da pistola de Genalva encostou em sua nuca. Em silêncio ele se levantou e virou-se, obedecendo à ordem da mulher. Ela se afastou e não evitou que ele percebesse a mira apontada justamente no meio de seus olhos.

– Você sabe que a vida é somente recordos? – Perguntou com a mesma tranqüilidade de uma borboleta pousando num sino.

José Antônio respondeu sem duvidar:
– 1357!

Entreolharam-se na escuridão durante 12 minutos exatos e então ele mostrou a faca. A mulher se aproximou. Na eternidade desses movimentos ele percebeu uma mariposa sobre o sepulcro de Hélio. Sem esperar, ele se virou, depositou a faca sobre o túmulo. Esperou a morte durantes alguns segundos sem fim, voltou-se e correu até onde Genalva já não estava. Encontrou a arma descarregada, uma rosa branca com espinhos e um bilhete amassado, escrito numa folha antiga, com caligrafia do século XVIII, que dizia simplesmente: “Adeus”.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Poemas do bar

1.

Não vou escrever um poema
para dizer que não estou bravo.
Não vou escrever um poema
para dizer que não quis ofender.
Não vou perguntar
se sua mágoa é duradoura.
Não vou falar
sobre o cheiro nojento de cigarro
no meu cabelo e na barba
e na blusa que joguei ali no chão.
É só que às vezes
a vida é mais simples
ou eu queria que fosse.
Não vou dizer agora à noite
que toda discussão me aborrece.
É só que às vezes
eu prefiro um conversa
a uma discussão dolorosa.
Não vou me explicar
para dizer que não é pouco caso.
Não vou fazer um poema
para outras pessoas lerem
sem entender nada
nem que além das palavras
e dos poetas num bar fofinho e fedorento
(mas não insalubre, meu Deus!)
existe a vida e o segredo
da amizade verdadeira.

2.

Não sou um poeta beat
não fumo não bebo
e não gosto da fumaça do cigarro.
Não sou Walt Whitman
Não sou William Blake
Não sou Ginsberg
Não sou Piva
Sou um cristão com asterisco
Mas não sou Tolstoi
Nem Thoreau
Nem vivo nos bosques
Nem vivo na cidade.
Não acho que escrevo bem
Aí vão me dizer que não é bem assim
Mas se eu acho, então é. Pra mim.
Vai ver não sou nem beat nem poeta
Porque essas coisas não me importam tanto
Porque às vezes não quero discutir.
Ainda assim fico aqui
no meio da noite
escrevendo poesia
ao invés de dormir.

3.

É, Jef, sou cristão com asterisco
e nota de rodapé.
E você, Jef, é marxista ortodoxo
com nota de rodapé?
É trotskista-leninista?
Ou o quê?
Acho mesmo cara
que vou tirar esse asterisco,
depois da conversa de hoje
fico pensando
se eu vou ser alguma coisa
preciso segurar a bronca.

4.

É que esquecemos muitas vezes,
somos pessoas.
Daí eu queria jogar uma pedra
na luz forte de uma casa aqui perto
(daquelas luzes que acendem
quando a gente passa na calçada)
e eu não sabia, nem perguntei
é casa de uma senhora viúva
e ela deve ter medo.
Eu queria condená-la
pela luz e pelo medo
mas ninguém pode dizer que o mundo hoje não dá medo.
Uma mulher me mandou um email
nem sei que mulher é essa
falando que os sem-terra são criminosos
terroristas e esse papo todo.
Aí eu fiquei com raiva
e quase xinguei (por email)
Mas então pensei um pouco
e não fiz nada.
É que esquecemos quase sempre,
somos pessoas.
Aí eu queria escutar a história
e queria que ela escutasse
e naqueles pensamentos loucos
desejei que todo mundo escutasse
a história que nos faz humanos
a história da viúva, dos sem-terra
da mulher que não conheço.
Mas um monte de coisas ainda continua errado.
E as portas estão fechadas
até que a gente esqueça de vez
ou talvez se lembre,
somos pessoas.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

E em resposta...

Para Cássio

Tomara mesmo, Cássio,
você não vire um católico chato e rançoso.
Kerouac. Não, não.

Fico só pensando
como somos, um pro outro,
um desafio.

Um ateu tentando ser bom
e um cristão tentando ser bom.
Amigos e briguentos.
Um com o outro,
conversam, discutem,
poemas e rock'n'roll.
Motos, graxa, as mulheres,
as perguntas da vida.

Um ateu e um cristão,
tentando um convencer o outro,
não é dogma, nem é só fé,
é amizade
de quem quer para outro
um caminho bom.

Um poema de um amigo

Para Gera

Brecht disse melhor que eu,
Mas preciso dizer:
Não vou mais discutir se sou mais
Alberto Caeiro ou Álvaro de Campos – sou os dois!
Nem se o futuro vai me fazer um católico que nem Kerouac,
Nem se o passado me fez um católico que nem o Cássio – não sou nenhum deles!

George Harrison disse melhor que eu:
O chão está sujo, precisa ser varrido. Vou lá varrer.
Talvez seja o que minha tia, antiga hippie, chama de sabedoria.
E o que meus colegas, atuais hippies, chamam de fascismo.
Só sei que ela escuta George faz tempo...

E assim vamos, Gera, seguindo.
Dando nossas aulas, fazendo nosso rock,
Viajando dia desses com as motos.

Vou vendo você praticar teu justo, honesto e belo cristianismo,
Preocupado com o outro e com o mundo.
E vou praticando meu ateísmo, preocupado com o outro e com o mundo,
Tentando ser bom, honesto e fazê-lo belo.

Nós dois acreditamos na utopia
(E você sabe melhor dizer como).
Nós dois fazemos poesia.

A melhor certeza que tenho, Gera,
É que, se um dia tiver que ser cristão,
Serei como você,
Com a dignidade que têm teus olhos,
Quando você fala com alguém.

Cassio Correa

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Desabrochar

Admiradas pela chuva
as flores miram o céu,
os cães correm pelos campos,
ladram pelas ruas numa alegre sinfonia,
pássaros voam pelos ares
em seus bandos sem limite,
as folhas caem moribundas
para que tenhamos em que pisar,
as gentes se alegram
e mesmo o velho taciturno
deixa entrever seus dentes
num leve sorriso.
Passeio pelo mundo e do alto
vejo-o como um grão de mostarda,
as pessoas como avelãs.
Em meu delírio, depois da chuva
tudo se converte
num imenso e belo desabrochar.

(01.08.2006)

Céus afegãos

Um cachorro temerário
voa pelos céus afegãos
colorindo os céus
com esperança.

Um dragão chinês
assustador, de papel,
sussurra
rosas sem espinhos.

Outra vez um corredor
branco
de passos diversos
me aguarda.

Outro ano sempre vem,
outras dores
nos fogos de artifício
inocentes.

Se o mundo
fosse preto e branco
talvez não gostássemos
da cauda do pavão.

A história é feita
de repetições
e migalhas,
cães perdidos
que voam
esperançosos
pelos céus
afegãos.

29-12-2007

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Papel

Que bonitos são hoje
as desgraças de ontem no papel.
Com a tranquilidade de uma faca
cortando o ventre de um menino
e girando suave nas vísceras,
a tinta despeja a forma
indignada e lírica
da boa literatura.

Prêmios
sem consolação
ao escritor.

A frieza de ontem
crua, seca,
civilizada,
hoje é raiva
de impossibilidades.

A crueldade de hoje
será indignação
amanhã.
E boa literatura
e prêmios
no papel.

No papel
a vida sem vida
bonita na tristeza,
na forma e circunstância
de seu tempo.

Nos prêmios,
nos artistas laureados
os gritos dos meninos,
as mulheres estupradas pela história,
a gente comum
que sangra destroçada
nos dias de hoje,
não se escutam.
Mas estão lá
ontem, na vida,
hoje...

Silêncio,
a humanidade
é de papel.

21 de junho de 2008

terça-feira, 10 de junho de 2008

Ontem à noite

Ontem à noite eu vomitei.
Era madrugada,
comi algo, não caiu bem.
Vai ver era um verme
na salada.

Aí ia viajar
e não fui,
ia no banco,
fui, mas não fiz o que ia fazer.
Esqueci.
Ia fazer o cadastro da imobiliária
na internet
e não fiz.
Esqueci.

Uma vez eu vomitei
lá na Ilha do Sol,
no lago Titicaca,
comi uma truta estragada
ou a altitude não me fez bem.

Hoje a Holanda enfiou três na Itália.
Parecia 74.

Liguei para um amigo
e falamos ao telefone
sobre o caso acusativo
de um substantivo feminino
do texto grego
do Novo Testamento.

Depois pedi pra uma amiga
fazer um favor,
me passar por email
a certidão de nascimento
do namorado e também
a certidão de casamento
da mãe dele,
por email.

À tarde estava com fome
comi um bolo de milho
meio quente
e fiquei com medo
de passar mal
de novo.
Logo eu, estômago de avestruz.

Passo mal de quatro em quatro anos.

Um dia depois de vomitar,
a fraqueza desidratada,
amanhã levanto cedo
e vou embora.

Itapevi, 9 de junho de 2008

Espectros

Já não há espectros
vagando por sobre a civilização
pois a ciência de nosso tempo
provou que não existem espectros
e que, portanto, resta-nos somente
comprar as últimas novidades.

13.09.2007

Desconstrução

Desconstrução

Quando decidiram
que todos deveriam aprender arte
e entender como funciona
o processo de criação
confiscaram todas
as obras-primas
e obrigaram os artistas
a apagarem
todas as pinceladas
na ordem inversa
em que foram dadas
e assim foi feito
até que todas
as obras-primas
desapareceram
e restaram somente
os quadros medíocres
de artistas infelizes
que nada diziam
a não ser
que nas sextas-feiras
de um mês imaginário
o espírito de Deus
desceria para ensiná-los
a arte verdadeira
de construir pessoas
que não fossem
programadas
para destruir.

09-11-2007

sábado, 24 de maio de 2008

Quarta-feira

Ao que parece foi numa quarta-feira
que feriram a boa vontade dos homens
e desumanizaram os pensamentos
para que chovesse metal
e a terra cultivada
produzisse lágrimas
e ausências
mas só depois disso
ter sido realizado em plenitude
pereceu nos homens finalmente
a capacidade de enxergar o que é belo.

09-11-2007

Poema para un niño

Hace años pocos, verdad,
yo dije que de mis manos
iban a salir unas palabras
para un niño chiquitito
de grandes ojos azules.
Por los caminos de la vida
se me olvidó la promesa,
pero otros caminos
me llevaron al recuerdo
y palabra es palabra,
entonces...

Niño, ya no más chiquitito,
mira los altos cerros
atrás de ellos hay gigantes.
¿Puedes verlos?

Mira las arenas del desierto
cuando vienen los cóndores
con su majestad altiva
y cree que fueron enviados
por reyes distantes
con un mensaje bueno.

Hay encantos en el mundo,
¡nunca los abandones!

Tome un espejo en las manos
ve tus ojos azules
son el espejo del cielo.
Si me engaña la memoria
y son verdes tus ojos
es porque reflejan el mar.

No te olvides, niño,
de hacer el bien
porque en los cuentos de hadas
los malos son derrotados
por los buenos
y el mundo sigue feliz.

No te olvides, niño,
que el mundo es feo
porque la gente se olvidó
de las hadas
que le decían a todos
que hicieran el bien
y así la gente
empezó a ser mala.

Entonces, niño,
no sigas ese camino.

Solamente no te olvides.

Campinas, 20-03-2008

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Como se faz uma comoção nacional

Deu no jornal:
mataram um homem
em Londres.
Suspeita de terrorismo.
Tudo bem, quando querem
matar alguém
é só acusar de terrorismo
que ninguém reclama.
Então mataram o homem,
o suspeito,
e ninguém se incomodou.
Logo em seguida
as notícias sobre o futebol
para alegrar o povo brasileiro!
Logo depois, desse jeito:
“E agora o futebol!”

Ninguém se incomodou
que mataram
um SUSPEITO.

Mais uns dias,
o tempo fez como sempre faz.

O suspeito,
ninguém se importava com ele,
se tinha feito algo,
se era de Catmandu
ou do Ceilão,
o dito homem
era brasileiro.

Oh, que injustiça cometida!
Como podem matar assim
um homem indefeso,
simples, trabalhador!

Não sei quantos tiros,
muita truculência,
paranóia, obsessão,
desespero anti-terrorista.

Mas até onde vai
a estupidez humana...

Ninguém questiona
a paranóia.
Ninguém pensa
Que parva obsessão.

Fosse um homem
nascido e criado
no Paquistão,
homem de bem,
trabalhador,
dedicado à família.

Comoção?

O Paquistão é um seleiro
de terroristas perigosos.

Já o Brasil,
terra do homem cordial.

Que terra linda!

Ninguém
de uma terra assim,
cheia de samba e futebol,
da arte de Pelé e Garrincha,
seria terrorista.

Se homem fosse mexicano
deixaríamos que a comoção
fosse inventada
no México.

Não tem problema
matarem um suspeito
afinal nenhum de nós
sabe o que é isso.

O que importa
a todo custo
é defender
a nossa liberdade.

Liberdade de comprar.

Campinas, 11 de abril de 2008.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Bolhas de sabão

A vida sempre continua,
mesmo que não seja a sua.
Pelo menos a dos outros continua
até chegarem os cavalos
de cores impossíveis
semeando o fim.

É humano ter raiva,

todos entendem.

Mais ainda quando é justificada.

E se a raiva não tem razão?

Alguém faz exatamente

o que disse que faria,

outros nunca sabem

exatamente o que fazer,

e outros ainda se esquecem

que a vida sempre continua

e não fazem nada.

Se “há bastante metafísica

em não pensar em nada”,

em não fazer nada, que há?

Metafísica...

Aos diabos!

Vamos fugir?

Tudo bem, pra onde?

Passárgada talvez,

mas a monarquia deve ter caído.

Será que as mulheres estão velhas mesmo?

Se estiverem bonitas, e daí...

Nada!

Mulheres bonitas, feias, mulheres!

Não é isso.

Nem homens, nem nada.

Me-ta-fí-si-ca!

Recebi uma resposta

em língua desconhecida.

Em resumo, não entendi.

Pode haver outra opção

por mim ignorada.

Podia visitar um leilão de carros,

ou andar até (.............................),

sem correr.

Alguns cachorros uivam ao som da harmônica.

O globo roda na ponta do meu nariz,

meu dedo aponta para a Tanzânia.

Transformei-me num bicho

das fossas abissais,

sem luz própria.

Sabe que a História morreu?

Fofocas acadêmicas.

Há há há!

Nos últimos dias choveu,

alguém estava triste,

devem ter feito poemas infelizes,

sobre a chuva, uma janela.

Chegou o sol, continuaram

fazendo poemas infelizes,

sem janela nem chuva.

Não vi o obituário dessa semana.

Não pensei em epitáfio nenhum.

Não gosto de vinagre na alface.

Sempre achei que alface fosse masculino.

Encontrei uma pedra no Uruguai,

carreguei comigo a pedra,

ela não serviu pra nada.

Ainda está comigo.

Ontem abracei um amigo.

Hoje fez sol.

(Censura).

Lembrei dos Menonitas da Coréia.

Imaginei a vida parando,

de todo mundo,

a minha não.

Chegou o fim para todos,

fiquei sozinho na eternidade.

Parei, pensei.

“Hum!”

Olhei para Deus, não resisti.

Perguntei:

“Qual o sentido da existência dos mosquitos?”

A vida sempre continua,

com-sem rima,

até que vire poesia

ou bolhas de sabão.

(Nunca conheci Menonitas da Coréia).

(26.07.2005)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Eu queria ser Bertold Brecht

Eu queria ser Bertold Brecht
escrever poemas feios
e todo mundo achar bonito.

Mas não adianta muito
mesmo Bert Brecht
não conseguiu mudar nada.

17.08.2007

Até onde vai o tempo

Até onde vai o tempo,
quando terminam as horas,
onde vai dar esta estrada?
Se conto os passos de minha caminhada
como posso acertar o caminho?
Se esse relógio é incessante
como pode haver um momento
em que ele pára?

Antes de tudo
reinava o caos.

Numa grande escuridão
brilha uma pequena luz,
eternamente.

Essa passagem
faz parte das coisas essenciais.

Mas quem pode dizer
que um uivo desesperado
de um cão perdido
não faz parte
das coisas essenciais?

Aliás, para um cão,
como passa o tempo?

É um mistério indefinido
como uma guerra
que traga paz,
como um barco navegando
rumo ao horizonte,
como um aceno de despedida.

Parece que não se deve olhar atrás
tentando buscar respostas
como se o rio que move o moinho
corresse no sentido inverso
e os peixes da Piracema
não precisassem se esforçar.

É bonito um adeus na rodoviária
prolongado na memória
enquanto não termina o percurso.
São suaves as lágrimas
quando se espera que o adeus
se desfaça num breve retorno.

E talvez devêssemos nos acostumar
a acenar, virar as costas
e não olhar para trás.

Mas não viraremos
estátuas de sal.

Alto, bem alto,
até onde se possa olhar.

Nem estrelas fixas
nem respostas fáceis.

Numa respiração profunda,
no barulho das ondas do mar,
numa noite bem dormida,
na pergunta sem resposta,
até quando o tempo passa?

14-01-2008

terça-feira, 6 de maio de 2008

Onde estão as palavras que me escapam

Onde estão as palavras que me escapam
Onde estão os versos verdadeiros
Contando baixinho o sentido da vida
Onde vou para conhecer a mim mesmo
O amor insensato à humanidade
A corrida para ganhar o que se perde
O trabalho inseguro que é cansaço
Onde está o gosto bom da infância
As cores coloridas do arco-íris
A luz que ilumina um dia de verão
Onde estão as palavras que me escapam...

05-04-2008