sábado, 30 de agosto de 2008

Um dia de sol

Eu preciso ficar só
e caminhar, caminhar, caminhar
por uma estrada de terra
de asfalto, de mar,
ir como se fosse eu
a rua o céu e o ar,
e a vida é assim,
é deixar pra trás
e esquecer o que se vai,
é uma despedida
um olá e um silêncio
num dia de sol,
um sol na guitarra
e um dó maior
pra terminar bem
com um sorriso
e um abraço de amigo.

Campinas, 28 de agosto de 2008

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Nada mais

Queria um poema que fosse eu,
fosse tudo que já fiz
e deixei de fazer.
Palavras claras como o meu agora
sem que nada mais
precisasse ser dito.

Campinas, 14 de agosto de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

1357

Depois de Hélio ter morrido não havia aparecido ninguém que matasse mais rápido que Genalva. Está certo, Hélio nunca tocou numa arma de fogo e podia atirar três facas com perfeição antes de o terceiro oponente alcançar o coldre, mas não se trata de comparações, pois ao mesmo tempo em que o homem das mãos de relâmpago foi o maior agora era simplesmente um recordo no povoado de 1357 habitantes. Já fazia 42 anos que esse número não mudava. No dia 17 de janeiro de 1848 três homens partiram para nunca mais darem notícias, Hélio morreu e José Antônio nasceu. Ele foi o único a perceber que desde seu nascimento eram sempre justamente 1357. Também constatou que, coincidência talvez, sempre que alguém nascia era certo, aparecesse ou não nos jornais, Genalva matara alguém com um tiro posto mi-li-me-tri-ca-men-te no meio dos olhos.

A partir do dia em que se deu conta do número, a vida de José Antônio não foi a mais mesma. Tornou-se uma obsessão compreender porque diabos eram 1357. Isso aconteceu quando tinha 7 anos, numa tarde sem folhas do outono mais alegre que a cidade teve depois da morte de Hélio. O pequeno jogava sozinho com um estilingue, tentando caçar o último pica-pau de cabeça alaranjada da região e tropeçou num jornal que continha os dados do último censo, as notícias sobre a última safra de soja e a foto do aniversário de 23 anos de Genalva Gomes. José Antônio já sabia ler desde os 4 anos, mas essa foi a primeira vez que algo escrito chamou atenção de seus olhos: era o número de sua vida.

Ainda que nos 35 anos seguintes não se tenha feito nenhuma contagem populacional ele manteve, desde aquele dia, o controle absoluto de todos nascimentos e óbitos na cidade. E compareceu a cada funeral, sempre levando uma rosa branca sem espinhos quando a morte era de criança. Sabia onde estavam enterrados os 232 mortos do período e os epitáfios, severos ou graciosos, escritos nas lápides tristes estavam, palavra por palavra, todos, contidos em sua prodigiosa memória. Lamentava profundamente o fato de que estava nos planos da prefeitura construir um novo cemitério. Quando completou 12 anos descobriu o túmulo de Hélio e passou a visitá-lo respeitosamente uma vez por ano, exatamente a 17 de janeiro. Nunca levou nada, era ele quem recebia, pois o lugar era o único onde se sentia em paz, e estar lá às 5h48, no seu aniversário, converteu-se em um ritual tão importante que, certa vez, o fez sob uma inesperada e catastrófica tormenta de verão que resultou no desaparecimento de 5 bebês, todos nascidos na semana anterior na qual Genalva não matara ninguém.

José Antônio tinha em seu poder a última das 7 facas usadas por Hélio durante sua vida. O matador a considerava bendita, porém foi ela que selou seu destino. Aliás, não se pode falar em 7 facas usadas, senão em 6, já que a última nunca cortou couro de homem. Hélio a mirava com olhos de fogo e, num desses momentos de deleite, perdeu seus instintos de bicho selvagem e foi morto com uma machadada na nuca por um camponês qualquer. Estava na hora. Nunca houvera matador com mais de 50 anos e 2 meses antes Hélio cumprira 67 anos. Estava velho. Matava com igual precisão, mas estava velho.

Ninguém sabe quando ou porque Genalva Gomes converteu-se de moça virgem em mariposa matadora, mas a cidade lamentava unânime o fato de que seu noivo partira para conhecer o mundo e resolvera, depois de atravessar 3 oceanos e falar com as baleias patagônicas, que já não queria se casar. Ela tinha quase 16 anos na partida e esperou-lhe por muito tempo até que uma carta deu o aviso da inutilidade de sua espera e da solidão eterna de seu amor. Ela, assim como José Antônio, percebeu que a vida de cada pessoa nada mais é do que seus recordos, e se alguém se alguém se esquece do passado já não faz parte do mundo dos vivos. Tratou então de esquecer, conseguindo dissolver as memórias incômodas.

No dia em que completou 42 anos José Antônio recebeu a alegre notícia, logo após chegar de sua visita ao túmulo de Hélio, de que sua irmã estava grávida. A partir de então começou uma frenética e desesperada contagem regressiva porque estava certo que Genalva iria matá-lo exatamente no dia do nascimento do seu primeiro sobrinho. Os meses não demoraram a passar. O dia marcado para o parto foi a única vez em toda sua vida que visitou o túmulo de Hélio fora da data habitual e também a primeira em que caminhou armado pelo povoado. Levava a faca, a última faca.

Sentou-se na lápide, esperou até que anoitecesse. Quando começou a crer que suas suspeitas eram infundadas e precisamente no momento em que seu sobrinho veio à luz, o cano gelado e silencioso da pistola de Genalva encostou em sua nuca. Em silêncio ele se levantou e virou-se, obedecendo à ordem da mulher. Ela se afastou e não evitou que ele percebesse a mira apontada justamente no meio de seus olhos.

– Você sabe que a vida é somente recordos? – Perguntou com a mesma tranqüilidade de uma borboleta pousando num sino.

José Antônio respondeu sem duvidar:
– 1357!

Entreolharam-se na escuridão durante 12 minutos exatos e então ele mostrou a faca. A mulher se aproximou. Na eternidade desses movimentos ele percebeu uma mariposa sobre o sepulcro de Hélio. Sem esperar, ele se virou, depositou a faca sobre o túmulo. Esperou a morte durantes alguns segundos sem fim, voltou-se e correu até onde Genalva já não estava. Encontrou a arma descarregada, uma rosa branca com espinhos e um bilhete amassado, escrito numa folha antiga, com caligrafia do século XVIII, que dizia simplesmente: “Adeus”.