domingo, 27 de maio de 2018

As dores da alma


Num dia qualquer você faz uma pergunta
enquanto caminha pelo corredor
e a pessoa ao lado acha tudo estranho.

Num dia comum o algodão branco do céu
parece mais triste porque o azul não brilha
e as mesmas pessoas amadas aborrecem.

Num dia desses você perambula pelas ruas
que já conhece vendo as casas repetidas
e a cidade parece mais feia e mais suja.

Num dia assim a grama verde de ontem
fica seca, feia, não tem a menor graça
e as árvores estão todas amarelas.

As dores da alma calam mais fundo,
a solidão ruge mais forte no peito
e você não sabe exatamente por quê.

Formosa, 23 de maio de 2018.

sábado, 26 de maio de 2018

Há dias ruins


Há dias ruins
em que o mundo
perde as cores
e as luzes são escuras.

Há dias ruins
em que você diz
palavras inadequadas
e percebe logo depois.

Há dias ruins
em que chegam
notícias desequilibradas
e a vida se contorce.

Há dias ruins
em que a solidão
é um fardo muito grande
e não dá pra carregar.

Há dias ruins
em que o amor
está tão longe
mal dá pra ver.

Há dias ruins
sabemos, e eles
fazem parte da vida
como os outros.

Formosa, 23 de maio de 2018.

domingo, 13 de maio de 2018

Aos órfãos de muitas mães


No segundo domingo de maio
desejo aos órfãos de muitas mães
o encontro do amor imerecido
em algum canto da vida.

Sentimos diferente a ausência
e no fundo não sei o que é pior,
ter mãe e perdê-la cedo demais,
procurá-la sem poder achar.

Nosso caminho é um grande mistério,
a esperança move o coração vazio
e queremos, precisamos, todos juntos
preenchê-lo com graça e verdade.

O que mais lembro


O que mais lembro de minha mãe
é seu sorriso franco e aberto
enchendo tudo ao redor.

Sinto seu amor nas velhas fotos,
procuro por ela em orações
e Deus me estende as mãos nas lágrimas.

Nos domingos solitários
o vazio aperta o peito,
silêncio é o consolo impossível.

O amor de mãe, na lembrança,
me faz esquecer a aridez
engastada na pele.

Todos nós que somos filhos
não sabemos muito bem
a grandeza desse laço.

Eu, que sou filho
de uma mãe há muito ausente
fico perdido a meditar.

Guardo no coração
as eternas lições
aprendidas sem saber.

O sorriso alegre
tem grande poder.

O perdão gratuito
é urgência da vida.

O amor, o amor verdadeiro,
supera tudo mais.

Mãe


Eu perambulava pelas ruas
sob a chuva fina, mãe,
e você me perguntava
onde eu ia, o que fazia
e se voltava.

Sumi muitas vezes
sem dizer as respostas
e seu coração se esvaziava,
eu sei.

Eu voltava e você
sempre estava lá
e cantava a adolescência comigo.

Ah, que coisa incrível, mãe,
você lavando a louça
Hey, ho, let’s go!

Eu queria escrever, mãe,
por pra fora o mundo represado,
e você lia comigo
e traduzia meus poemas ruins
porque o rock com os amigos
precisava do inglês.

Criancinha, antes de dormir,
você me ensinava orações
e a ficar sozinho
sem medo do escuro.

Que coisa horrível, mãe,
você me via de farda
na escola das agulhas negras
e eu disse que não.

Fui pra longe de você, mãe,
mas não era culpa sua,
no fundo a vida me chamava
e eu fui, assim mesmo,
sem pensar.

Corri para longe
procurando Deus no mundo
e tentando ser melhor
cometi muitos enganos.

Eu gostava de voltar, mãe,
mesmo sem dizer,
não ficava olhando
da janela do ônibus
porque tinha medo de sofrer.

O medo e a solidão, mãe,
endurecem o coração,
hoje eu sei
e você tentava me contar.

Estava ocupado, mãe,
com os anseios da juventude,
a dureza da verdade,
o ímpeto sem delicadeza.

Eu era jovem, mãe,
e não tive tempo de voltar,
era jovem, sem experiência,
só queria fazer o que era certo.

Naquele tempo eu achava, mãe,
o que acham todas as crianças,
você estaria sempre
esperando-me chegar.

E então, mãe, o telefone tocou
e eu corri pra ver você,
mas era a hora da partida.

Mantive a firmeza e a esperança, mãe,
segurando a sua mão
na ambulância sozinho
entre os hospitais.

Não deu tempo, mãe,
de crescer e aprender
a amar como você
e a sorrir pra todo mundo.

Muita gente foi se despedir, mãe,
e me abraçaram e beijaram,
e eu continuei indo adiante
porque agora, mãe,
não podia mais voltar.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Reunião


Do alto de um monte
a natureza celebrava
alegre e suave.

As águas do mar
cintilavam verde-azul,
barquinhos passeavam devagar.

A mata atlântica,
sonhava verde-delirante,
pessoas caminhavam pequeninas.

O céu nevoado
cantava azul-ternura,
aves voavam com o vento.

Espetáculo assim, magnífico,
exige algum esforço,
breve sofrimento.

No monte, alto,
sobre pedras nuas,
reunidos à criação
festejamos.

Anápolis, 9 de fevereiro de 2018.


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Do belo amor


Pensei em responder passo a passo
aos poemas de Álvaro de Campos
fingindo-me grande, imenso, infinito,
como se estivéssemos frente a frente.

A intuição cósmica da tristeza
e o desespero labiríntico
descem na garganta secos,
são tão belos.

Não, não posso respondê-los,
são tão lindos.

A beleza é dessas coisas,
cada dia vemos,
cada dia admiramos.

Admiro-te então, senhor Álvaro,
teus escritos desencantados,
tua angústia voraz,
essas lágrimas entrecortadas
de quem entrou de súbito na tabacaria
para um gole de absinto.

Um dia, um dia certamente,
um dia desses qualquer,
de céu azul e sol ardente,
a alegria aparece
e o amor vence o medo.

Goiás, 31 de agosto de 2015.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Os brutos

Os brutos,
como se sabe,
também amam.
Mas o amor dos brutos
é como eles,
forte, violento,
brucutu.

Os brutos,
quando tranquilos,
maquinam algo.
Roem as unhas,
sofrendo, pensando
no próximo ataque
da vida.

O bruto é assim,
mesmo sem sofrer
nunca
nenhum ataque.

O bruto,
quando agradecido,
consegue, com esforço,
parir um obrigado.
E afasta-se rápido
quase envergonhado.

O bruto,
quando gosta de alguém,
faz-lhe coisas,
fica ao seu lado,
resmunga
e nunca diz
simples assim,
te amo.

O bruto,
quando está contente,
corre a fala solta,
euforia pura,
canta e dança
e xinga.

O bruto,
quando concorda,
demora a dizer sim
e depois faz
igualzinho
– ideia própria.

O bruto,
como qualquer um,
tem o mundo ali dentro
mas faltam palavras
para colocar de fora
o sentimento.

O bruto é desse jeito,
vive a vida
esbarrando nos outros
quando queria mesmo
um abraço.


Anápolis, 1º de janeiro de 2018.

sábado, 13 de janeiro de 2018

O sono

O sono é um prenúncio da morte, 
o cansaço dos dias, 
a desilusão com a vida. 

O sono é o único remédio 
para o esgotamento 
de todos os trabalhos ordinários. 

Depois da farra - o sono. 
Estudo compenetrado - sono. 
Labuta frenética - ah, o sono! 
Ele subjuga, 
ergue-se vitorioso 
sobre a consciência altiva. 

Embriaga e seduz 
corpo e alma. 

Chega num bote certeiro, 
carinho manso, 
na cama quentinha, 
no chão da praça, 
na biblioteca. 

Compromete a imagem: 
as bochechas amassadas, 
o restinho de baba, 
os olhos de ressaca, 
o mau-humor descontrolado. 

Nada mais existe 
quando o sono vence, 
a vida perde as cores 
e escurece. 

O sono é um anúncio da morte. 

Depois dele surge o dia, 
luz e vida, 
nos esperando 
a ressurreição.

Formosa, 10 de janeiro de 2018.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Agenda


Enquanto vigiava a noite
meditava sobre verdade e beleza,
bateu súbita a prosa da vida.

As tarefas do dia
dividem a mesma agenda
onde me sai sofrida a poesia.

Consertar o chuveiro
A reunião – não irei
Escrever para fulano.

Resisto – em cada página
espreitam poemas, sonhos, desenhos,
e tudo se mistura
nos dias velozes,
lambendo o tempo
o tempo que nos resta.

Anápolis, 8 de janeiro de 2018.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Esses nossos tempos

Não há porque ter orgulho, só amor.

Amor pelos jovens que cultuam o ódio
e pelos velhos que destilam rancor.

Amor pelas crianças,
ainda não conhecem
a sujeira do mundo.

Amor pela vida exuberante,
pelos bichinhos singelos
e pelas grandes florestas.

Amor, o amor, é só o amor.

Não quero o amor supérfluo pelas coisas
ou inconstante e circunstancial.

Não me acuse de ingenuidade
como se não visse
a vida violenta
batendo em nossa cara.

Vemos todos nós
mas só saber não basta,
só agir não basta,
só lutar não basta.

Tudo é essencial, tudo, tudo!

É preciso amar,
amar muito, infinito.

E o mundo novo que queremos
não pode ser como esse,
feio, sujo e cruel.

Formosa, 14 de dezembro de 2017.

Quando eu andava pela América do Sul

Quando eu andava pela América do Sul
tinha 25 anos e não pensava
na coincidência entre a canção
e a vida errante.

O coração sangrava enquanto o mundo,
o mundo se abria, ó meu Deus!
A vida era outra
era nova, era breve,
era urgente,
sem dinheiro nem compras,
sem frescura e sex appeal.

Pensava então na ajuda mútua,
a solidariedade gratuita,
encontramos por aí.

Sentia um pouco de fome,
pedi comida umas vezes,
dormi em praças, praias e quintais.

Eu via o mundo
de olhos bem abertos
distante e alegre como nunca mais.

Nunca mais pude ser
quem tinha sido antes,
a solidão era outra
e os amigos os mesmos.

Tentando ser poeta
acabei professor.

Mas não se engane você
como se fosse tudo mal
e a insatisfação
uma coisa tão essencial.

Esse mundo passando,
essa América confusa,
esse tanto de gente
assim boa e generosa
me ensinou a estar contente
onde quer que eu esteja
e a ajudar a quem puder.

São Paulo, 11 de dezembro de 2017.

São Paulo 17

São Paulo vista do alto
parece bonita,
quase acolhedora.

De longe, lá de cima,
os rios serpenteiam para longe,
oeste das bandeiras.

De perto, em baixo,
passa a gente cinza e marrom,
a pressa é o decoro da metrópole.

São Paulo é suja e cheira mal.

A mulher logo ali está grávida
seu marido dorme ao lado
e ninguém nem vê.

Smartphones, esbarrões,
acidentes e o tumulto,
o centro velho que revive.

Os bons amigos,
fé e poesia,
alguma esperança ainda nos move.

São Paulo, te detesto,
mas sempre volto pra te ver.

São Paulo, 11 de dezembro de 2017.

domingo, 19 de novembro de 2017

Num domingo à tarde

Entre os acadêmicos
gostaria de ser um sacerdote
com toga, estola e até capa,
falar do sagrado e da vida
como importa que seja.

Entre os sacerdotes
gostaria de ser um acadêmico
com diplomas e artigos,
falar do estudo e da ciência
no santo combate à ignorância.

Estou, porém, longe dos sacerdotes
que influenciam multidões.

Estou, também, longe dos acadêmicos
que formam opiniões.

Resta-me ser um poeta pequeno
e escrever versos num domingo à tarde
e sonhar com um bolo caseiro
quentinho no forno,
feito com amor.

Anápolis, 19 de novembro de 2017.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Numa noite qualquer

Às vezes, numa noite qualquer,
quando se espera das máquinas
as mesmas mensagens desprezíveis,
como já nos acostumamos
a ver todos os dias,
chegam palavras de afeto
e carinho e gratidão
lembrando que a vida
apesar de tudo
não precisa ser tão dura
e pode ser, sim!
um pouquinho melhor.

Antes que o mundo acabe

Os tempos são difíceis
qualquer um pode notar.

Ódio, raiva e rancor
fermentam as palavras
imprudentes digitais.

Em muitos jovens
a esperança do futuro!
pulsa forte o coração
o retorno a tempos vis.

Será o futuro
apenas passado repetido?
Serão os jovens
velhos antes do tempo?

A mão que bate
também pode afagar.
O perdão, verdade!,
engole todo rancor.
O amor verdadeiro
nos livra do ódio.

Não fugiremos da luta,
a vida é dura
e ninguém vai fingir
que está tudo bem.

Os tempos difíceis
não derreterão nossa esperança
nem congelarão o afeto.

A ternura em nossa vida
faz ressurgir
anseios esquecidos.

Precisamos disso
antes que o mundo acabe.

Formosa, 1º de novembro de 2017.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Um por cento ou matemática da defesa

Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, 
por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. 
Tiago 5,1

Como nos defenderemos
dessa gente mesquinha e covarde,
a elite empreendedora,
os ricos, as corporações,
esses senhores disfarçados de dignidade
nos ternos bem cortados,
no minimalismo descolado
das jovens start-ups,
os donos do mundo e do capital,
um por cento predadores?

Senhores e senhoras
vamos aos números
do susto e da desgraça.
Menos de um por cento
de todos os seres humanos
engole quase a metade da riqueza produzida.

Ze-ro-vír-gu-la-se-te.

Vamos clarear
talvez ainda
esteja difícil de entender,
população de 0,7% = 41% do tesouro.

Certas pessoas comem por cem.

Ainda mais números,
precisamos da matemática,
senhoras e senhores.

Oitenta e cinco
é o cômputo das gentes
engolindo em bocadas grandes
oitocentos e trinta e três
pedaços do bolo
repartido em mil.

Outra vez
é preciso
esclarecer:
pessoas 8,5% = 83,3% da fortuna.

Essa gente come bolo!

E ainda querem
nos fazer acreditar
que esses poucos
produziram tudo
com seu suor e trabalho.

Sou fraco nessa fé.

O resto de nós todos
é apenas um bando
grande e preguiçoso
que não se esfoçou o suficiente
ainda?

Como nos defenderemos
desse ataque tão mordaz?

A comilança sempre aumenta
e devemos produzir outro bolo
recheado e com confeitos
para os patacudos.

Vamos todos juntos
trabalhar alegres,
bem dispostos,
talvez nos sobrem umas migalhas!

E essa gente gulosa mata
um dia após o outro
as girafas pescoçudas
os rinocerontes chifrudos
os leões reis-da-selva
os corais da Austrália
os peixinhos da Amazônia
os tubarões do mar azul
os gorilas grandalhões do Congo
infinitos seres pequeninos.

Bocarra aberta
engolindo o abismo da criação.

Dessa violência
nos defenderemos?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Santo ofício policial


A multidão andava, rápido,
corria ensandecida.
Os carros de som
bradavam inaudíveis.
As bombas de efeito imoral
caíam incontáveis.
As bombas de gás
voavam infinitas.
Spray pimenta
balas de borracha
cavalaria.

É que viraram um carro
tudo está justificado.

Sobre os pecados da polícia
desce imediatamente
a graça divina:
fazem seu trabalho.

Trabalhar, hoje,
é sagrado!
São Paulo disse:
quem não quer trabalhar
não coma.

Picharam umas paredes
tudo está justificado.

Na cortina de fumaça
chovem bombas
sobre a multidão.

Crianças perdidas,
adultos desconsolados,
jovens resistem.

Barricadas, fogo!

Depois do santo ofício
exercido sem moderação
ninguém reclama
do carro queimado.

A multidão recuava
por todos os lados.

Um menino solitário,
calça jeans, sem camisa,
lenço no rosto,
solidário com a vida
gritava e desviava
todos, todos!

Havia um ninhozinho
de Quero-quero.
A mãezinha berrava,
mais que as bombas.
A multidão com medo
desviava, respeitosa.

Marchavam os cachorros
dos donos do poder.
Os rastros da dor
cruzavam o ar
antes de explodir.

Passaram todos pelo ninho,
e então vieram.

O que foi do passarinho?

A polícia,
a polícia não desvia.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Tão rápido


Ainda me impressionam
as pessoas na sala de espera
do consultório psiquiátrico
olhando arregaladas os telefones.

Às vezes me pedem
que mande mensagem no zap,
respondo que não,
não posso, não quero,
e me olham estranho.

Sou de outro tempo
e nem sou tão velho assim.

Não é questão de idade,
gosto de olhar nos olhos,
de reparar nas caras esquisitas,
gosto até do tédio
das revistas velhas
sempre de direita,
de banalidades,
que folheávamos
esperando o tempo.

Outro dia me explicaram
o que era Pokemon, pokebola
e não fez sentido.
Nenhum.

Daí às vezes me preocupo
de nos vigiarem
e seguirem
e matarem
às vezes de outra forma.

Mas então, o que fazer,
todos estão nessa coisa
de teclar com polegares,
tirar fotos de si,
usar ainda mais palavras inglesas.

Comprar comprar comprar.

Tenho que dizer onde estou
pra pegar um táxi mais barato,
pra namorada ficar tranquila,
pra provar qualquer coisa.

Não quero e me lembro
dos dias na estrada
por aí, pelo mundo,
inseguro e sem medo.

Eram outras esperanças dez anos atrás.

Penso mesmo em plantar umas alfaces,
colher e sujar a mão de terra,
e ficar ali num canto
vendo os outros passarem
tão rápido.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quanto Vale?



Quando criança aprendi
na escola dominical:
“o verbo se fez carne
e habitou entre nós”.

Mais tarde entendi
o verbo Jesus
era também palavra
era também razão.

Hoje quase preciso me desculpar
por saber do logos grego
ofende quem não sabe.

Perdão, perdão a todos,
eu gosto de aprender!

Poesia, um amigo ensinou,
é feita de imagens
e nunca me esqueci.

A metáfora salta do papel
grita detrás da tela
urgente, urgente!

Moisés abriu o mar,
passou na novela outro dia,
liberdade ao povo de Deus!

O mar de lama
era imagem
virou verdade.

A culpa só pode ser dos céus
os milagres bíblicos
não se reeditam.

Esqueceram de passar
na tampa da represa
o sangue dos cordeiros.

O Bento foi soterrado,
que tragédia – natural!

A bênção dos tempos modernos
é só para aqueles, bem devotos,
que buscam em primeiro lugar
o lucro, o lucro.

It’s only business, my friend!
Dizem os acionistas
correndo atrás do tempo
perdido.

Já não há mais tempo
para cada coisa sob o céu.

Não há mais céu
nessa nova religião.

A culpa é dos profetas,
só pode,
não tocaram a sirene.

A culpa é do destino,
tem de ser,
de quem mais?

O mar de lama
invade a vida
de súbito.

Moisés já é passado
o novo deus
não encarnará.

Não há razão
para explicar,
as palavras
vão sumindo.

Cada um dos mortos
dói em infinitos corações.

Bem que Jesus mesmo se cansou
“Até quando terei que suportá-los?”

Até quando nos suportaremos?

Quanto Vale a vida humana?
Quanto Vale um rio?
Quanto Vale um peixe morto?
Quanto Vale a água?
Quanto Vale a vida?
Vale?

O verbo habitou entre nós
mas não vimos a graça e a verdade.